Charli XCX troca o hyperpop pelo rock e escancara o vazio da fama em 'Music, Fashion, Film'
Por Camila Teixeira
Ela passou anos nos bastidores, escrevendo hits para os outros enquanto construía a própria carreira no silêncio. Até que Brat explodiu e virou o jogo. Agora, Charli XCX lança seu sétimo álbum de estúdio, 'Music, Fashion, Film', e faz uma virada radical: abandona o hyperpop, abraça as guitarras dos anos 90 e 2000, e entrega um disco que é, acima de tudo, uma crítica afiada ao culto da imagem e ao preço da fama.
De ghostwriter a popstar: a trajetória de uma artista que nunca se calou
Antes de ser a rainha do hyperpop, Charli XCX era a mão invisível por trás de sucessos como Same Old Love, de Selena Gomez, e Gravity, do Blondie. Ela escrevia para meio mundo enquanto lançava discos experimentais que poucos ouviam. Boom Clap, Fancy e I Love It lotavam as pistas, mas o rosto por trás delas seguia anônimo para a maioria.
Foi com Brat que a ficha caiu. O disco não só a colocou no centro do pop, como virou a palavra do ano do dicionário Collins. A persona da '365 party girl' de verde-limão tomou conta das redes, das passarelas e das baladas. Charli virou trendsetter, embaixadora da Saint Laurent, nome na BoF 500. E ainda flertou com o cinema, atuando em The Moment e Erupcja.
Guitarras, nostalgia e uma crítica social afiada
Em 'Music, Fashion, Film', Charli faz questão de desconstruir a própria imagem. O autotune escancarado dá lugar a vocoders mais sutis. O hyperpop de pista cede espaço às guitarras, ao lado dos coprodutores A.G. Cook e Finn Keane. A faixa de abertura, Rock Music, já decreta o fim da pista. Mas o rock que ela faz é o de quem viveu a música eletrônica: cheio de texturas, picotes de vocais e referências que vão dos Strokes ao Pixies, do indie francês dos anos 2000 ao drop de Song 2, do Blur.
São 11 faixas que passeiam por nostalgia e crítica social. Card Declined escancara a compra de uma personalidade inteira em produtos de luxo. SS26 questiona a autenticidade no mundo pop. Camera encara o medo de largar tudo pela atuação. E Persona alfineta quem fala sem parar sem dizer nada de verdade. No fim, No One Lasts Forever encerra o álbum ao lado de David Cronenberg, com uma frase sobre a morte: todos partem, ninguém dura para sempre.
Se Brat abria o diário com temas como ciúme entre mulheres, luto e insegurança, aqui o olhar se volta para dentro. Para o que as pessoas fazem para parecerem bem-sucedidas. Para o vazio que a fama muitas vezes esconde. Charli canta que nada vai salvar a gente, nem música, nem moda, nem cinema. E é exatamente essa honestidade brutal que faz de 'Music, Fashion, Film' um dos discos mais potentes do ano.
O que esperar de 'Music, Fashion, Film'?
O álbum já está disponível nas plataformas digitais. A capa, assinada por Aidan Zamiri, reúne o músico John Cale, o estilista Marc Jacobs e o cineasta Martin Scorsese, um para cada palavra do título. Uma síntese perfeita do que Charli XCX sempre foi: uma artista que transita entre mundos, sem nunca se deixar aprisionar por nenhum deles.
Foto: Reprodução / Vogue