Tarifaço dos EUA: empresas brasileiras não fogem, mas mudam o jogo para continuar vendendo
Diante das novas tarifas impostas pelos Estados Unidos, as empresas brasileiras não estão abandonando o maior mercado consumidor do mundo. Em vez disso, estão repensando suas estratégias para continuar competitivas, em um movimento que mistura resistência, criatividade e uma boa dose de pressão sobre os custos.
Enquanto o governo brasileiro acionou a Lei da Reciprocidade Econômica e as negociações seguem em aberto, o chão de fábrica já sente os efeitos. As exportações para os EUA caíram 13% no primeiro semestre de 2026, somando US$ 17,4 bilhões, e a participação americana nas vendas externas do Brasil despencou para 9,4%, o menor nível desde 1997. Mas, longe de uma debandada, o que se vê é uma revisão profunda nos modelos de negócio.
Por que as empresas brasileiras não estão desistindo dos EUA?
“A pergunta para muitas empresas deixou de ser apenas exportar ou não exportar e passou a ser qual é o modelo mais competitivo para continuar atendendo esse mercado”, afirma Camila Moura, diretora de Negócios Internacionais da Amcham Brasil. A entidade observa tanto casos de adiamento de investimentos quanto empresas que aceleraram planos para não perder oportunidades já mapeadas.
Diego Sampaio, CEO da Globalfy, plataforma que ajuda empreendedores a abrir empresas nos EUA, reforça: “Quando o empreendedor não consegue estimar com precisão o preço de venda e o custo da operação, ele tende a postergar a decisão.” E os números mostram o tamanho do recuo: a procura de marcas brasileiras por novos negócios nos EUA caiu cerca de 50% nos últimos 18 meses.
O peso das novas tarifas sobre os produtos brasileiros
Desde agosto de 2026, uma enxurrada de taxas extras atinge os produtos brasileiros. São três camadas: 25% de tarifa adicional específica para o Brasil, 12,5% de uma sobretaxa global e o imposto de importação que já existia, que pode chegar a 34% dependendo do produto. Na prática, um item brasileiro pode enfrentar uma carga extra de até 37,5%.
“As tarifas adicionais de 37,5% não significam que o empresário perde quase 40% do faturamento. Mas ele terá de reduzir margem ou reajustar preços para recuperar parte desse equilíbrio”, explica Sampaio. Uma operação com margem de 20% pode ver esse número cair para 14%, dependendo da estrutura de custos e da capacidade de repassar preços.
De exportar para operar: a nova estratégia das empresas
Uma das principais adaptações é a criação de subsidiárias nos EUA. Empresas que vendiam direto do Brasil para o consumidor americano (modelo cross-border) agora buscam estruturas locais para reduzir o impacto tarifário. A Globalfy fez uma simulação: um vestido vendido por US$ 100 nos EUA geraria US$ 53,50 em impostos no modelo de exportação direta. Com uma subsidiária, a carga cai para US$ 13,38.
Setores como moda, cosméticos, móveis e acessórios estão na frente dessa mudança. “Considerando um custo médio de operação de US$ 1.500 por ano, é seguro dizer que um faturamento anual a partir de US$ 5.000 já pode justificar o início de uma operação local”, afirma Sampaio. Produtos de maior valor agregado conseguem absorver melhor esses custos; os de menor valor, não.
Quanto custa abrir uma operação nos EUA?
O processo pode ser feito remotamente, sem visto, e leva entre 20 e 30 dias. O custo varia: taxas anuais de US$ 62 em Wyoming a US$ 140 na Flórida e US$ 300 em Delaware para LLCs. Antes disso, um estudo de transfer pricing pode custar de US$ 3.500 a US$ 5.000. A manutenção anual fica entre US$ 1 mil e US$ 1,5 mil para estruturas simples, podendo chegar a US$ 10 mil em operações mais robustas.
“Como não é obrigatório ter um contador responsável pela contabilidade, muitos empresários com operações mais simples utilizam softwares que automatizam boa parte do processo com inteligência artificial”, diz Sampaio. Negócios digitais preferem Wyoming e Delaware; produtos físicos, Flórida e Texas.
O que muda para os trabalhadores e a soberania nacional?
Essa reestruturação não é só uma questão de planilha. Ela reflete a pressão de um sistema comercial injusto, que penaliza o trabalho brasileiro e favorece grandes corporações. A Amcham alerta que setores como aço, máquinas e madeira estão entre os mais expostos. E a resposta das empresas, muitas vezes, é terceirizar custos ou reduzir margens, o que pode impactar empregos e investimentos no Brasil.
“O aumento das tarifas é claramente uma conjuntura adversa. Mas ele ocorre dentro de uma transformação mais ampla”, afirma Moura. “Momentos de ruptura normalmente trazem custo e incerteza, mas também obrigam as empresas a rever premissas.”
Enquanto o governo Lula busca uma saída negociada, a realidade é que as empresas brasileiras estão se adaptando para não perder espaço. Mas a luta por um comércio mais justo continua. E essa é uma batalha que não se vence apenas com estratégia empresarial, mas com política pública e soberania.
Perguntas frequentes sobre o tarifaço dos EUA
O que é o tarifaço dos EUA sobre produtos brasileiros?
É um conjunto de tarifas extras impostas pelos EUA desde agosto de 2026, incluindo 25% específicos para o Brasil e 12,5% de uma sobretaxa global, além do imposto de importação já existente.
As empresas brasileiras estão deixando o mercado americano?
Não. A maioria está revisando seus modelos de operação, como criar subsidiárias locais, para reduzir o impacto das tarifas e continuar competitiva.
Quanto custa abrir uma empresa nos EUA?
Os custos variam de US$ 62 a US$ 300 em taxas anuais, mais US$ 3.500 a US$ 5.000 para um estudo de transfer pricing e US$ 1.000 a US$ 1.500 por ano para manutenção de estruturas simples.
Quais setores são mais afetados pelo tarifaço?
Aço, metais, máquinas, madeira e produtos manufaturados estão entre os mais expostos, segundo a Amcham Brasil.