Compras públicas sem burocracia: a plataforma que promete transformar a gestão e já mira R$ 60 milhões
Comprar uma caixa de canetas pode parecer simples, mas para a administração pública é um processo que envolve regras de competição, transparência, logística e prestação de contas. Essa burocracia pode transformar uma compra corriqueira em meses de espera. Foi para mudar essa realidade que nasceu, em 2016, a govtech Portal de Compras Públicas, especializada em licitações.
Neste ano, a empresa lançou o Compra Simples, um e-marketplace para aquisição de bens pelo poder público, com catálogo padronizado, integração logística e mecanismos para tornar o pagamento aos fornecedores mais previsível. A proposta é aproximar as compras públicas da experiência dos marketplaces privados, sem abrir mão das exigências legais.
“Meu sonho é ver alguém dizer que daqui a dois, três anos os hospitais brasileiros praticamente não sofrem mais com falta de medicamento, de insumo, de material cirúrgico, por conta de compras que levam meses”, afirma Leonardo Ladeira, CEO e cofundador do Portal de Compras Públicas.
Da licença ao marketplace: a trajetória da empresa
Leonardo Ladeira, analista de sistemas e administrador, começou a empreender no fim dos anos 1990. A primeira ideia era ligada à gestão de conteúdo na internet, sem relação com compras públicas. Em 2001, a empresa passou a focar nos municípios, percebendo que pequenas prefeituras precisavam cumprir as mesmas regras dos grandes órgãos, mas com menos estrutura.
A regulamentação do pregão eletrônico, em 2002, abriu uma oportunidade. Em 2003, a companhia lançou a primeira versão do Portal de Compras Públicas. O modelo inicial vendia licenças de software. Em 2008, passou a oferecer infraestrutura como serviço, incluindo servidores, conexão e suporte.
O problema apareceu quando cada prefeitura queria sua própria plataforma. “Imagina um fornecedor querendo vender para a administração pública, se cada município brasileiro tivesse a própria plataforma. Eu ia ter mais de 5 mil sites, logins e senhas para acompanhar. Não funcionava”, explica Ladeira.
Em 2016, a empresa deu um passo ousado: abriu mão dos contratos com a administração pública e passou a cobrar uma assinatura dos fornecedores. A transição levou quase três anos para atingir o equilíbrio financeiro, mas cerca de 80% a 85% dos clientes aderiram ao novo modelo.
O problema de transformar uma compra em processo
Na compra pública tradicional, o órgão precisa descrever o produto e abrir o processo para propostas. Essa descrição varia entre órgãos e até para o mesmo item. No Compra Simples, a lógica é invertida: a plataforma usa um catálogo padronizado, e o fornecedor cadastra previamente seus produtos, mantendo preço e estoque atualizados.
Segundo Ladeira, a base do Portal tem cerca de 600 mil fornecedores cadastrados e atende mais de 4 mil municípios. A mudança busca reduzir o tempo e a incerteza da operação. Um processo que pode levar três meses, diz o executivo, poderia chegar a três dias em certos casos.
“Estamos diante de uma mudança de lógica. Não se trata de criar mais um processo para o gestor público, mas de oferecer um novo modelo de compra, com tecnologia, critérios claros e segurança jurídica”, afirma Ladeira.
O processo fica registrado para permitir a verificação posterior, garantindo rastreabilidade. A operação é integrada ao Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP), criado pela nova Lei de Licitações de 2021.
O preço também depende do prazo de pagamento
Um dos gargalos está no prazo para receber. A média de pagamento na operação observada pelo Portal é de cerca de 93 dias, com grande diferença entre os órgãos. O Compra Simples tenta reduzir essa variável com um depósito em garantia, semelhante ao usado em plataformas de comércio eletrônico.
O fornecedor cadastra sua conta bancária na plataforma. O dinheiro fica retido até a confirmação da entrega e, se houver problema, pode retornar para a administração pública. O Portal organiza o fluxo, mas não recebe o dinheiro em sua própria conta.
O primeiro foco foi a saúde, especialmente casos de judicialização, quando uma decisão determina que o poder público forneça um medicamento em prazo curto. Depois, o catálogo avançou para material de construção, escritório, limpeza e outros itens do dia a dia da administração.
O desafio é mudar o hábito de compra
A tecnologia resolve parte do problema. A outra parte depende da mudança de comportamento de quem compra e de quem vende para o governo. O próprio Ladeira reconhece que o marketplace não substitui o planejamento das compras. A ideia é atuar nos gargalos e nas necessidades urgentes, como reposição de medicamentos ou materiais hospitalares.
Além dos municípios, há estatais, autarquias, empresas de saneamento e hospitais que seguem regras próprias de contratação. Segundo o executivo, a empresa já atende perto de 80% dos municípios brasileiros. A expansão depende de aumentar o volume de compras na base existente e avançar sobre outros compradores públicos.
O Portal de Compras Públicas projeta faturamento de R$ 60 milhões em 2026. Para o Compra Simples, a expectativa é que 5% do volume atual de compras migre para o novo modelo nos próximos 24 meses. Em cinco anos, Ladeira estima que essa participação possa chegar a 20%.
“O Compra Simples nasce para resolver uma questão muito concreta: como trazer para as compras públicas a simplicidade que as pessoas já experimentam no comércio digital, sem abrir mão das regras que protegem o interesse público. A tecnologia existe, a estrutura existe e a segurança jurídica também. Agora, estamos colocando essa combinação para funcionar”, conclui Ladeira.