A escalada de tensão no Oriente Médio ganhou novos capítulos nesta segunda-feira, 14, com dois movimentos que acendem alertas no mundo inteiro. De um lado, os países do Golfo adiaram uma reunião com o Irã que discutiria a gestão do Estreito de Ormuz, rota vital para o petróleo global. De outro, os rebeldes hutis do Iêmen, apoiados por Teerã, anunciaram ataques com dezenas de mísseis balísticos e drones contra alvos militares no sul da Arábia Saudita.
O encontro de chanceleres estava marcado para esta segunda-feira, em Omã. A ideia era avançar num acordo temporário para administrar a navegação pelo Estreito de Ormuz, que está bloqueado desde o início da guerra entre Irã, Estados Unidos e Israel, no fim de fevereiro. Sem consenso, a reunião ficou para depois.
O chanceler omanense, Badr Albusaidi, justificou o adiamento dizendo que a decisão foi tomada “em nome do consenso”. Já o Irã afirma que o recuo partiu de um pedido da Arábia Saudita. “Continuamos empenhados em promover um diálogo que favoreça a estabilidade e uma cooperação duradoura em nossa região”, escreveu Albusaidi no X (antigo Twitter).
O que os hutis disseram sobre os ataques à Arábia Saudita?
O porta-voz militar dos hutis, Yahya Saree, afirmou que o grupo executou “uma operação militar em larga escala contra instalações e infraestruturas militares, incluindo hangares de aviões de combate, radares, pistas de pouso, depósitos de munições e outros alvos situados na base aérea Rei Khalid, em Khamis Mushait”.
Segundo os rebeldes, a ofensiva responde aos ataques aéreos que a Arábia Saudita realizou contra o Iêmen nos últimos dias. Autoridades sauditas emitiram alertas de emergência na região e em outras três cidades do sul do país.
Por que a captura da ilha de Perim preocupa o comércio global?
A escalada acontece poucos dias depois de os hutis capturarem a ilha de Perim, no Estreito de Bab el-Mandeb. Essa passagem conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e integra uma das principais rotas comerciais entre a Ásia e a Europa. Controlar esse ponto significa ter poder sobre um dos caminhos mais movimentados do planeta.
A retomada dos combates agravou ainda mais a crise humanitária. Milhares de pessoas deixaram áreas costeiras, e a ONU informou que mais de 2.000 cruzaram para o Djibouti desde a última quinta-feira, 10. Na quinta-feira, os hutis também tomaram o porto da cidade iemenita de Mocha, numa tentativa de controlar toda a costa do Mar Vermelho. Eles ainda reivindicam o controle da cidade de Hays, que fica na interseção entre três províncias, e do acampamento Khalid ibn al-Walid, a maior base militar da região.
Como começou a tensão entre hutis e Arábia Saudita?
As hostilidades começaram em julho, quando os hutis desafiaram o controle de Riad sobre o espaço aéreo iemenita ao permitir que um avião iraniano pousasse no Iêmen. O governo reconhecido pela comunidade internacional respondeu com um ataque ao aeroporto.
A fase mais recente da escalada veio na semana retrasada, com ataques hutis a instalações de energia e cidades do sul da Arábia Saudita usando drones e mísseis balísticos. Isso aconteceu após o colapso, em julho, do cessar-fogo firmado em 2022, em meio à crescente instabilidade regional.
Em resposta, as forças militares do reino lançaram pelo menos 40 ataques na última quarta-feira, 9. “Aviões sauditas executaram 32 ataques aéreos contra diversas áreas das províncias de Marib, Al Jawf, Taiz e Hodeida nas últimas horas”, informou o canal de televisão rebelde Almasirah. Poucas horas depois, a emissora relatou uma dezena de bombardeios adicionais.
Qual é o saldo de mortos no Iêmen?
Os combates já deixaram mais de 500 mortos no Iêmen, segundo balanço da agência de notícias AFP. O número inclui pelo menos 216 soldados do governo e 278 combatentes hutis, além de 29 civis. Por trás dos números, há famílias inteiras destruídas e uma população que mais uma vez paga o preço de uma guerra que não escolheu.
Enquanto as potências discutem interesses geopolíticos e rotas de petróleo, são os povos do Iêmen e da região que seguem sofrendo as consequências mais duras. A comunidade internacional precisa olhar com urgência para essa crise, que não é apenas um problema do Oriente Médio, mas uma ferida aberta que afeta a estabilidade global e a vida de milhares de pessoas comuns.