Reforma tributária exige modernização ou bloqueios fiscais
A reforma tributária vai obrigar empresas brasileiras a uma das maiores adaptações operacionais das últimas décadas. Quem não modernizar sistemas, integrar dados e capacitar trabalhadores até 2026 corre o risco de enfrentar bloqueios fiscais, perda de créditos e sufocamento do caixa. O alerta é de especialistas ouvidos por CartaCapital: a transição vai muito além das alíquotas e atinge o coração da operação, da tecnologia ao fluxo financeiro.
Por que a reforma tributária é mais do que mudança de impostos?
O debate público ainda se concentra nas mudanças de alíquotas e obrigações fiscais. Mas quem trabalha na ponta já sente que o impacto real da transição vai atingir tecnologia, fluxo de caixa, rastreabilidade de dados, integração de sistemas e, principalmente, a gestão de pessoas. O período de convivência entre as regras antigas e as novas é apontado como o momento de maior risco para companhias que ainda mantêm estruturas fragmentadas e baixa integração entre áreas.
Para empresas que atuam com serviços digitais, importação e operações internacionais, a reforma amplia os desafios de integração entre plataformas fiscais, financeiras e operacionais. A emissão de documentos, o cálculo de tributos e a conciliação de dados entre diferentes jurisdições vão exigir muito mais precisão dos sistemas.
Empresas que possuem operações internacionais precisarão garantir uma integração maior entre dados fiscais, financeiros e comerciais. O desafio não será apenas calcular tributos, mas assegurar rastreabilidade, compliance e consistência operacional em diferentes sistemas e jurisdições.
As palavras são de Lisandro Vieira, CEO da WTM, empresa especializada em soluções para operações internacionais. Para ele, a transição vai acelerar uma agenda que muitas empresas ainda tratam como secundária. Em operações internacionais, especialmente na importação de serviços digitais, o risco não está apenas em pagar o tributo errado, mas em não conseguir comprovar, rastrear e integrar corretamente todas as etapas da operação, completa.
Como o split payment vai afetar o caixa das empresas?
Um dos pontos que mais preocupa é o efeito do split payment sobre o fluxo de caixa. Com o novo mecanismo, o imposto passa a ser recolhido no momento da liquidação da transação, sem passar integralmente pela conta da empresa. Para as grandes corporações, o choque pode ser absorvido. Para as pequenas e médias, a mudança pode significar sufocamento financeiro.
Israel Malheiros, sócio e COO da Vertrau Tecnologia, especializada em gestão de recebíveis, avalia que o impacto vai além do cálculo tributário.
O desafio será ter uma infraestrutura tecnológica capaz de conectar dados fiscais, financeiros e operacionais de forma automatizada e auditável.
Gonzalo Parejo, CEO da Kamino, plataforma de gestão financeira para médias empresas, reforça o alerta.
O grande desafio será manter a previsibilidade financeira em um ambiente onde parte dos recursos deixa de transitar integralmente pela empresa, exigindo acompanhamento mais rápido e detalhado sobre o impacto financeiro real das operações.
Quem paga a conta da modernização exigida pela reforma?
Caroline Aun, head administrativo-financeira da Mirante Tecnologia, aponta que tratar a transição como tema exclusivamente tributário é um dos principais erros que as empresas podem cometer.
A reforma não impacta apenas a maneira de calcular impostos, mas também a revisão de contratos, ajustes de preços, reavaliação de margens e maior controle sobre custos.
Segundo ela, organizações com baixa maturidade na integração entre áreas financeiras, fiscais e tecnológicas tendem a ampliar os riscos operacionais durante a adaptação. Empresas que deixam a adaptação para a última hora tendem a enfrentar custos mais altos, maior risco operacional e dificuldades na tomada de decisão, alerta.
A necessidade de rastrear informações ao longo de toda a cadeia operacional deve acelerar a modernização dos sistemas, especialmente em empresas que ainda dependem de bases de dados pouco padronizadas. Raquel Coser, diretora de ERP da Zucchetti no Brasil, multinacional italiana especializada em sistemas de gestão, aponta as limitações estruturais.
Empresas com dados descentralizados ou pouca padronização tendem a enfrentar mais dificuldades para garantir consistência e segurança das informações.
Frederico Matias, CFO da Triven, destaca que muitas empresas subestimam o impacto operacional da reforma.
O novo modelo exigirá integração entre áreas como tributário, financeiro, jurídico, compras, vendas e TI. Sem automação e governança de dados, as empresas podem enfrentar bloqueios fiscais, perda de créditos tributários e dificuldades no fluxo de caixa.
Trabalhadores e trabalhadoras estão preparados para a transição?
A transição para o novo modelo também deve ampliar a demanda por profissionais preparados para lidar com novas rotinas e com a integração entre áreas fiscais, financeiras e tecnológicas. A questão central não é apenas tecnológica, é social. Se as empresas não investirem em capacitação, a conta chega para quem vive do trabalho.
Bruno Cortez, CEO da Elofy, plataforma de gestão de desempenho, afirma que empresas que investirem desde já em tecnologia e capacitação de equipes terão mais condições de atravessar a mudança com menos dificuldades.
Tecnologias de gestão terão papel importante para dar visibilidade à adaptação dos times, evolução de processos e alinhamento operacional entre áreas que precisarão trabalhar de forma muito mais conectada durante a transição.
A reforma tributária é uma oportunidade histórica de justiça fiscal no Brasil. Mas o caminho da transição não pode ser trilhado às custas do sufocamento das pequenas empresas e da precarização do trabalho. Modernizar é preciso. Incluir é urgente.
Perguntas frequentes sobre a reforma tributária e as empresas
O que é o split payment na reforma tributária?
Split payment é o mecanismo em que o imposto é recolhido no momento da liquidação da transação, sem passar integralmente pela conta da empresa. Isso altera diretamente o fluxo de caixa e exige maior controle financeiro.
Quais empresas correm mais risco com a reforma tributária?
Empresas com sistemas legados, dados descentralizados e baixa integração entre áreas fiscais, financeiras e tecnológicas correm maior risco de enfrentar bloqueios fiscais e perda de créditos tributários.
A reforma tributária afeta os trabalhadores?
Sim. A transição exige capacitação de equipes para novas rotinas e integração entre áreas. Se as empresas não investirem em treinamento, o impacto recai sobre quem vive do trabalho.