Dois esqueletos fossilizados encontrados na província de Guizhou, na China, revelam o que pode ser o primeiro anfíbio a viver exclusivamente no mar. Batizada de Gerrothorax maritimus, a espécie habitou águas salgadas há cerca de 237 milhões de anos, durante o período Triássico, segundo estudo publicado na revista Nature Ecology & Evolution e divulgado pela Super.
A descoberta, descrita por uma equipe internacional de paleontólogos, coloca em xeque um dos pressupostos mais sólidos da biologia evolutiva: o de que os anfíbios, por terem pele fina e permeável, jamais conseguiram se adaptar à vida marinha. Hoje, nenhuma das mais de oito mil espécies conhecidas vive exclusivamente no mar.
Uma armadura que virou passaporte para o oceano
O Gerrothorax maritimus media cerca de 74 centímetros, tinha corpo achatado e era coberto por escamas duras semelhantes a uma couraça. Essa estrutura, originalmente uma proteção contra predadores em água doce, passou a cumprir outra função quando a linhagem migrou para ambientes mais salinos: impedir a absorção de sal pela pele.
Segundo o paleontólogo Ryosuke Motani, autor do estudo, o animal precisou desenvolver uma estratégia incomum para sobreviver. “Quando um sapo nada em água salgada, ele perde a água de seu corpo, pois a água do mar a extrai através de sua pele permeável, por meio da pressão osmótica”, explicou Motani à Reuters. “Ele também não consegue beber água, pelo mesmo motivo. Como resultado, perde peso corporal e precisa descansar em água doce para se recuperar.”
No caso do Gerrothorax maritimus, a couraça óssea bloqueou a entrada de sal, forçando o animal a ingerir água do mar pela boca e a filtrar o excesso por meio das brânquias. Motani classifica o fenômeno como exaptação: quando uma característica biológica passa a desempenhar uma função diferente daquela de sua origem.
Um acaso evolutivo
A análise anatômica indica que o parente mais próximo do Gerrothorax maritimus é o Gerrothorax pulcherrimus, também do Triássico, que tinha armadura e corpo achatado, mas vivia apenas em água doce. A comparação levou os pesquisadores a concluir que o estilo de vida marinho foi um acaso evolutivo, e não uma tendência gradual.
Os cientistas também consideraram a possibilidade de que os esqueletos tenham sido levados ao mar após a morte, como ocorre com outros fósseis. No entanto, os ossos foram encontrados muito distantes de qualquer massa terrestre da época, o que sugere que não foram arrastados pela correnteza. A análise de isótopos reforçou a hipótese: os níveis encontrados nos ossos coincidem com os da água do mar do Triássico, indicando que as criaturas “cresceram bebendo água do mar”, segundo o estudo.
Para Steve Brusatte, paleontólogo da Universidade de Edimburgo que não participou da pesquisa, a descoberta tem peso revolucionário. “Se esse anfíbio do período Triássico era realmente totalmente marinho, então isso muda tudo”, disse ele à Nature.
O que a descoberta muda para a ciência
Atualmente, apenas 2% dos anfíbios apresentam algum nível de tolerância ao sal marinho. Diferente dos peixes marinhos, que possuem glândulas especiais para eliminar o excesso de sal, os anfíbios não conseguem regular a quantidade absorvida. A pele fina e permeável, essencial para a respiração e a absorção de água doce, torna-se uma sentença de desidratação rápida em contato com a água salgada.
A existência de uma espécie totalmente marinha no Triássico obriga os cientistas a repensar como os anfíbios modernos se adaptaram à vida terrestre e à água doce. O estudo, segundo a G1, descreve o Gerrothorax maritimus como o primeiro anfíbio conhecido a viver exclusivamente no mar, um achado que reacende debates sobre os limites da adaptação biológica.
A pesquisa também levanta questões sobre a vulnerabilidade dos ecossistemas atuais. Se um anfíbio conseguiu, há 237 milhões de anos, desenvolver uma solução tão improvável para sobreviver em condições adversas, o que isso diz sobre a capacidade de resiliência das espécies diante das mudanças climáticas e da degradação ambiental? A resposta, dizem os pesquisadores, está nos fósseis. E eles continuam a falar.
Perguntas frequentes
Qual é a importância do Gerrothorax maritimus?
É o primeiro anfíbio conhecido a viver exclusivamente em ambiente marinho, o que contraria a ideia de que a pele permeável dos anfíbios impede a adaptação à água salgada.
Como o animal conseguia sobreviver no mar?
Uma couraça óssea impedia a absorção de sal pela pele. O animal ingeria água do mar pela boca e filtrava o sal pelas brânquias, um exemplo de exaptação.
Onde os fósseis foram encontrados?
Na província de Guizhou, na China, distantes de qualquer massa terrestre da época, o que afasta a hipótese de que tenham sido levados pela correnteza.
