O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), derrotado na eleição presidencial de 25 de outubro, divulgou nesta quarta-feira, 28, uma carta dos Estados Unidos em que se apresenta como vencedor do pleito e promete comandar o Brasil à distância. O texto, classificado como golpista por diversos analistas, já provoca rachaduras dentro da própria direita brasileira e expõe a fragilidade do discurso de perseguição política usado pelo clã Bolsonaro.
Segundo o Estadão, a carta lembra uma fuga para um mundo de fantasia, como na série de livros As Crônicas de Nárnia. Flávio alega ser vítima de perseguição política, mas a Polícia Federal solicitou a retenção dos passaportes dele por suspeita de participação em esquema de lavagem de dinheiro com um advogado amigo. Não há pedido de prisão contra o senador, o que impede chamá-lo de foragido.
Discurso de fraude não convence nem os aliados
A prorrogação da votação no domingo, decidida pelo Supremo Tribunal Federal, não alterou de forma significativa a proporção dos votos, como ficou amplamente comprovado. Mesmo assim, Flávio insiste na tese de que houve fraude e se autoproclamou voz da oposição no exílio.
Os principais aliados do senador já reconheceram a vitória do presidente Lula, reeleito para o quarto mandato. Entre eles estão o vice na chapa derrotada, Alfredo Gaspar, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o líder da oposição no Senado, Rogério Marinho.
O colunista do Estadão avalia que o discurso de Flávio prejudica justamente os parlamentares da oposição bolsonarista. Os 19 senadores e 121 deputados federais eleitos pelo PL assumem os mandatos no ano que vem e formarão a maior bancada da próxima legislatura. Ao dizer que eles não têm liberdade para exercer a política, o senador no exílio diminui a própria bancada do partido e deslegitima os seis governadores eleitos pelo PL, além dos nove que apoiaram sua candidatura.
Trump se distancia publicamente da carta
Questionado sobre o documento, o presidente americano, Donald Trump, afirmou nesta quarta-feira que não vai se envolver com o assunto. A declaração foi reportada pelo Valor Econômico, que destacou o distanciamento do republicano.
O portal O Antagonista registrou que Trump declarou não comentar a carta em que Flávio se autoproclamou presidente legítimo do Brasil. Segundo o Folha, o senador publicou duas versões do documento, uma delas com um brasão que escrevia Brazil com z, o que virou alvo de deboche nas redes sociais.
Por que Flávio ainda interessa a Trump
A análise do Estadão aponta que o senador pode ter utilidade passageira para o republicano. Trump enfrenta as eleições de meio de mandato em 3 de novembro, e as pesquisas indicam chances grandes de vitória da oposição democrata nas duas casas legislativas. Prevendo a derrota, ele já prepara o terreno para alegar fraude, chegou a oferecer 1 milhão de dólares para denúncias de irregularidades na votação e ameaçou contestar o resultado.
Nesse cenário, as acusações de fraude eleitoral feitas por Flávio servem de munição para o discurso de Trump. Mas a relação tem prazo de validade. O presidente americano não gosta de perdedores e prioriza seus interesses imediatos, como mostra o caso da Venezuela, onde abandonou a oposição à própria sorte e mantém um acordo petrolífero vantajoso com a presidente chavista Delcy Rodríguez.
A direita brasileira já se reorganiza sem o clã
Enquanto Flávio se isola em território americano, a direita em Brasília começa a se reorganizar. A colônia bolsonarista nos Estados Unidos cresce, mas o poder de fato permanece no Congresso, nos governadores e nos partidos que precisam governar com Lula a partir de janeiro.
O vitimismo e a tese da perseguição são marcas estruturais do bolsonarismo desde 2018. O pai do senador, Jair Bolsonaro, seguiu o mesmo caminho em dezembro de 2022, quando fugiu para os Estados Unidos após tentar um golpe de Estado. O impulso de autopreservação da família agora repete o roteiro, com a agravante de que nem os aliados mais próximos acreditam na fantasia.
Para o movimento democrático brasileiro, o episódio reforça a necessidade de vigilância. Um ex-candidato derrotado que se autoproclama líder de uma nação a partir do exílio não é apenas uma curiosidade política. É um alerta sobre os riscos permanentes de um projeto que nunca aceitou as regras do jogo democrático.
Perguntas frequentes
Flávio Bolsonaro é considerado foragido?
Não. A Polícia Federal solicitou a retenção dos passaportes dele por precaução, mas não existe pedido de prisão contra o senador, que está em exílio voluntário nos Estados Unidos.
O que diz a carta divulgada em 28 de outubro?
Flávio Bolsonaro afirma ser o verdadeiro vencedor da eleição de 25 de outubro, se declara voz e liderança da nação à distância e acusa o STF de controlar a oposição.
Trump apoiou as acusações de fraude de Flávio?
Não publicamente. Em 28 de outubro, o presidente americano disse que não vai se envolver com a carta, embora analistas apontem que o senador pode ser útil ao discurso de Trump sobre fraudes eleitorais nos EUA.
