Como o Bope virou máquina de extermínio: a herança maldita da ditadura militar
As origens da tropa de elite do Rio de Janeiro revelam por que ela mata tanto e por que nunca conseguiu conter o crime. Uma história de tortura, racismo e genocídio que perdura até hoje.
Em agosto de 1981, uma cena bizarra chocou o Rio: policiais transferiam uma jiboia de 2 metros do prédio do Ponto Zero, sede de órgãos policiais em Benfica, para o zoológico. Mas não se tratava de resgate de animal. A cobra vivia ali há anos, sendo usada para torturar presos e arrancar confissões, conforme revelaram corajosos jornalistas da época.
O policial que se fotografou com a jiboia enrolada no corpo era Paulo César Amêndola, futuro criador do Bope. Este episódio macabro revela as raízes podres dessa tropa: nasceu não para proteger o povo, mas para exterminá-lo.
Genocídio com carimbo oficial
O massacre de outubro passado nos complexos da Penha e do Alemão, que deixou mais de 120 mortos, não foi exceção. Foi a regra de sempre: extermínio da população pobre e preta das periferias. O governador Cláudio Castro (PL) ainda teve a desfaçatez de comemorar a carnificina, comparando o Rio a Paris e defendendo que qualquer pessoa com fuzil deve ser "abatida" em 20 segundos.
"As matanças policiais que marcam a história do Rio são chocantes, sim, mas não surpreendentes", denuncia a reportagem original. É o resultado direto de décadas de uma política genocida que nunca foi interrompida.
Da ditadura às favelas: a mesma lógica de extermínio
Em 1957, o Exército criou cursos de "operações especiais" para formar militares na chamada "guerra irregular". Era o início de uma doutrina que via inimigos internos em todo lugar, especialmente entre os pobres e oprimidos.
Com o golpe de 1964, essa lógica contaminou todas as polícias do país. O general Luís de França Oliveira, especialista em "guerra psicológica", criou o Goesp em 1969, grupo que depois daria origem ao Bope. Desde o início, tratava-se de aplicar técnicas militares de extermínio no policiamento das periferias.
Mesmo com o fim da ditadura e a Constituição de 1988, nada mudou. O caso de Hélio Ribeiro, morador de favela morto em 2010 porque um policial do Bope confundiu sua furadeira com um fuzil, é emblemático. O assassino foi absolvido. O juiz disse que ele "acreditava na licitude de sua conduta".
Impunidade total, genocídio garantido
Os números são aterrorizantes: entre 2001 e 2011, 99% dos "autos de resistência" não resultaram em punição alguma aos policiais assassinos. É impunidade total para matar pobre e preto.
Rodrigo Pimentel, outro ex-Bope famoso, agora defende que o Rio vive uma "guerra civil" contra "narcoterroristas". Quer suspender direitos constitucionais, permitir invasões de casas sem mandado e flexibilizar ainda mais as regras para matar. É a velha receita genocida com nova embalagem.
O remédio que virou veneno
Nas quase cinco décadas de existência do Bope, a violência só cresceu. O domínio territorial do crime se expandiu. A estratégia falhou completamente em seus objetivos declarados, mas foi um sucesso absoluto no que realmente importava: manter a população pobre sob terror constante.
"Inventar as categorias de 'narcoterroristas' e guerra civil seria o mesmo que triplicar a dose de um remédio que o Brasil vem tomando há muito tempo e que, comprovadamente, só agravou a doença", alerta a reportagem.
O Bope não é solução, é o problema. Nasceu para matar, e é isso que faz melhor. Enquanto não enfrentarmos essa herança maldita da ditadura, o genocídio da juventude preta das periferias continuará com carimbo oficial do Estado.