Enquanto o mundo da moda muitas vezes parece um clube fechado para poucos, a Vogue resolveu olhar para quem está chegando. Em uma iniciativa global, cada edição internacional da revista indicou um designer emergente de sua região. E, sim, o Brasil marca presença nessa lista, com a Misci, uma marca que carrega no nome e nas costuras a nossa história de mistura e resistência.
“A Vogue tem uma enorme capacidade de impulsionar marcas e designers, e adoro ver esse apoio se transformar em sucesso”, afirma Chloe Malle, diretora de conteúdo editorial da Vogue americana. A declaração reforça o papel da publicação em dar visibilidade a quem constrói moda de verdade, longe dos holofotes do mainstream.
Misci: a identidade brasileira como centro da criação
Com referências que vão do modernismo ao Carnaval, a Misci coloca a identidade brasileira no centro de sua criação. Alfaiataria com recortes que acompanham o corpo e jacquards desenvolvidos sob medida estão entre as assinaturas da marca. Seu nome deriva da palavra miscigenação, refletindo a mistura única de culturas que moldou o Brasil através de sucessivas ondas de imigração desde o século 19.
“É a nossa história contada através do tecido. A Misci não é só moda, é um retrato de quem somos como povo”, destaca Maria Laura Neves, da Vogue Brasil, ao apresentar a marca.
Uma geração que aposta em sustentabilidade e artesanato
O que chama atenção na lista é um fio condutor: a preocupação com o meio ambiente e o resgate de técnicas artesanais. Não é coincidência. Enquanto as grandes corporações seguem produzindo em escala industrial, esses novos nomes apostam em materiais reciclados, estoque excedente e produção consciente.
Na Arábia Saudita, Ziyad Buainain trabalha com tecidos de estoque excedente e fontes responsáveis. Na Holanda, Tess van Zalinge cria demi-couture a partir de materiais reaproveitados. Na Polônia, Karen Arcanjo colabora com artesãos locais para incorporar crochê, tricô manual e bordado às suas peças. Na China, Kinyan Lam desenvolve uma moda pautada pelo princípio do “slow by design”, colaborando com mais de 60 artesãs na província de Guizhou.
Talento que vem da periferia do mundo da moda
Vários desses designers vêm de países e contextos historicamente marginalizados no circuito fashion global. É o caso da colombiana La Petite Mort, fundada por Jonathan Cortez e Andrés Durán, que desenvolve uma alfaiataria de identidade marcadamente latino-americana.
“Refletimos as diferentes vozes, tradições e contextos culturais que coexistem na América Latina”, afirmam os fundadores, citados por Karla Martinez, da Vogue México e América Latina.
Na Índia, Taarini Anand leva para a moda masculina técnicas de tricô manual aprendidas com a mãe e a avó. Nas Filipinas, Joseph Bagasao trabalha com fibras naturais e materiais reaproveitados. Na França, Anthony Calydon constrói sua marca diretamente com sua comunidade, mantendo o controle sobre a própria narrativa.
Moda como resistência e afirmação cultural
A lista também mostra que a moda pode ser um instrumento de afirmação identitária. A Shushu/Tong, de Xangai, reinterpreta a feminilidade combinando códigos românticos com alfaiataria precisa, refletindo uma mulher chinesa contemporânea, divertida e segura de si. A portuguesa Arndes, de Ana Rita de Sousa, foca no trabalho artesanal e na sustentabilidade, transformando peças clássicas em propostas contemporâneas e atemporais.
Enquanto isso, nomes como a japonesa Cobble Du e a coreana Post Archive Faction mostram que o futuro da moda também passa pela experimentação e pela quebra de padrões.
O que esperar dessa nova geração?
Se depender dos nomes listados, o futuro da moda será mais consciente, mais diverso e mais conectado com as realidades locais. De estilistas que vestiram Lady Gaga, como o australiano-taiwanês Samuel Lewis, a criadores que mantêm produção artesanal em pequena escala, como a dupla dinamarquesa da Taus, o que se vê é uma recusa ao modelo predatório da fast fashion.
Para o Brasil, a presença da Misci nessa seleção é um reconhecimento importante. Mostra que nossa cultura, nossa história e nossa gente têm valor e espaço no cenário global. E que moda, quando feita com propósito, pode ser uma ferramenta poderosa de transformação social.