Brasileira nos EUA denuncia Estado que esmaga o empreendedor
Fernanda Spanner, 44 anos, construiu um império na contabilidade nos Estados Unidos, atendendo milhares de imigrantes com serviços essenciais. Sua trajetória revela a força do trabalhador brasileiro, mas também lança uma luz dura sobre um Estado brasileiro que parece agir contra o povo. Ela acusa o governo de perseguir o pequeno empreendedor com uma carga tributária punitiva e classifica a reforma tributária como uma maquiagem. No entanto, seu relato também expõe contradições éticas profundas quando avalia o governo de Donald Trump e as políticas anti-imigração nos EUA.
De funcionária pública a referência para imigrantes nos EUA
A história de Fernanda é marcada pelo trabalho árduo. Ela trabalhava como auditora interna na Câmara Municipal no Brasil, mas largou o serviço público para abrir um restaurante. O negócio deu tão certo que o estresse diário levou ao fim do casamento. Buscando retomar o fôlego, tirou uns meses sabáticos na Flórida em 2016. Longe de descansar, foi trabalhar numa padaria brasileira. Foi ali, atendendo imigrantes e ouvindo suas dores, que nasceu a ideia que mudaria sua vida.
Quando cheguei nos Estados Unidos em 2016, tinha dificuldade muito grande para conseguir profissionais. Na procura para declarar meu imposto de renda, encontrei um contador. Foi lá que pensei: e se eu montasse um escritório onde tenho todos esses serviços que um imigrante brasileiro precisa?
Ela notou que os contadores americanos sumiam depois da temporada de declarações. Com a licença de Enrolled Agent, uma das mais altas credenciais do IRS, e o conhecimento das duas realidades, criou a Spanner Consulting Group em Nova York. O modelo era bem brasileiro: acompanhar a empresa o ano todo, de perto.
Por que o brasileiro não tem síndrome de vira-lata, mas sofre com o Estado
Para Fernanda, a ideia de que o brasileiro tem uma síndrome de inferioridade é uma mentira que esconde a violência estatal. O povo é criativo e se vira, mas sofre pauladas diárias de um sistema que parece agir contra quem tenta crescer.
No Brasil a gente tem que sofrer tanto para conseguir alguma coisa. Não é a população que tem síndrome de ser inferior, não. É porque no Brasil a gente só recebe paulada. Você emprega, vende uma coisa, vai montar uma barraquinha para vender sorvete em frente à praia, vão lá e te taxam e falaram: Você está errado, tem que pagar multa. Parece que o governo anda contra os empresários.
Ela lembra o caso das patinetes em São Paulo, quando a prefeitura exigiu IPVA e taxas de trânsito, sufocando um serviço popular. O medo de crescer no Brasil não é falta de capacidade. É uma resposta racional a um Estado que cobra impostos como quem aplica uma multa ao trabalhador, enquanto as grandes fortunas e as elites conservadoras seguem protegidas por brechas e isenções.
A maquiagem da Reforma Tributária brasileira
Com o rigor de quem entende de números, Fernanda não poupa críticas à reforma tributária brasileira. Para ela, a mudança é apenas estética para continuar espremendo o mesmo contribuinte.
É uma maquiagem, é só para continuar cobrando imposto, dizendo que pelo menos tentei melhorar. No geral, estão unificando impostos, mas se for ver a quantidade, ao invés de cinco vão ser quatro. A reforma que está acontecendo no Brasil, se for para resumir, está piorando o Brasil, não melhorando.
A crítica vai ao cerne da questão: a arrecadação vai continuar a mesma e o peso continuará caindo sobre quem menos tem. A mudança força os profissionais a aprenderem uma nova forma de serem tributados, mas não altera a lógica estrutural de um sistema que privilegia os de cima e esmaga os de baixo.
A contradição ética do apoio a Trump e a realidade dos imigrantes
É ao falar dos EUA que o relato de Fernanda traz uma contradição ética difícil de ignorar. Ela reconhece que Donald Trump é economicamente bom, mas admite que o tarifaço foi um jogo de tabuleiro e que o presidente caça confusão onde não deve. No entanto, vai além ao dizer que a ideia inicial de deportar imigrantes criminosos era muito legal.
Aqui, a sensibilidade ética exige um olhar atento. A lógica de separar bons e maus imigrantes é um dos pilares do discurso fascista e racista da extrema direita. A própria Fernanda constata o resultado dessa lógica punitiva: agentes imigratórios não estão mais atrás de criminosos, estão prendendo e deportando trabalhadores que nunca cometeram crimes. É o que acontece quando a sociedade apoia medidas autoritárias acreditando que elas só atingirão o outro. O Estado de exceção sempre se expande até alcançar os inocentes.
O problema maior do Trump, tirando a parte de caçar confusão onde não deve, está sendo a imigração. Começou com uma ideia que era muito legal. Você está morando aqui nos Estados Unidos, se cometeu crime, tem que ir embora. Mas não é mais isso que acontece, estão apreendendo e deportando pessoas que nunca cometeram crimes.
Números de uma rede que acolhe a diáspora
Apesar das contradições políticas, o empreendimento de Fernanda é um fato concreto de resistência e acolhimento. A Spanner Consulting Group tem escritórios em Nova York, Nova Jersey, Flórida e Carolina do Sul. O crescimento é sustentado pela força da comunidade: 75% dos clientes vêm por indicação. São 3.000 clientes para declarações anuais, sendo 800 recorrentes que acompanham mensalmente. O faturamento cresceu 29% em relação ao ano passado, com uma equipe de 30 pessoas entre os EUA e o Brasil. Agora, ela busca expandir por franquias, treinando profissionais para levar esse modelo de apoio ao imigrante a outros estados.
Perguntas frequentes sobre impostos e empreendedorismo
Qual a diferença da carga tributária entre EUA e Brasil?
Segundo Fernanda Spanner, a carga sobre a renda nos EUA é de 37,5%, enquanto no Brasil é de 27,5%. No entanto, ela aponta que nos EUA não há impostos escondidos dentro de produtos ou serviços como no Brasil, o que permite ao contribuinte saber exatamente o que paga ao governo federal e estadual.
O que a contadora brasileira pensa sobre a reforma tributária?
Fernanda Spanner classifica a reforma tributária brasileira como uma maquiagem. Para ela, a unificação de impostos não vai melhorar a vida do contribuinte nem reduzir a arrecadação, apenas criará uma nova burocracia para os profissionais aprenderem, mantendo o mesmo peso sobre os ombros do povo.
O que é um Enrolled Agent nos Estados Unidos?
É uma das mais altas credenciais na área tributária dos EUA, licenciada diretamente pelo IRS. O profissional com essa licença tem autorização para representar contribuintes perante o fisco americano, semelhante ao que um advogado tributarista faria no Brasil.