Flip 2026: 40 mil pessoas em Paraty e a força da literatura que vem do povo
A 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) terminou neste domingo, 26 de julho, com números que emocionam e provocam reflexão. Quarenta mil pessoas passaram pela cidade histórica do litoral fluminense entre os dias 22 e 26, segundo estimativa preliminar da Prefeitura. Um crescimento de 17,65% em relação a 2025, que teve 34 mil participantes. Mas por trás dos números, o que realmente brilhou foi a literatura que fala das lutas, das desigualdades e da resistência do povo brasileiro.
Quem roubou a cena na Flip 2026?
Se a programação oficial trouxe nomes como a escritora inglesa Zadie Smith e o médico Drauzio Varella, foram as vozes da periferia e da diversidade que realmente incendiaram a festa. A cearense Socorro Acioli e o português Valter Hugo Mãe lideraram a lista de autores mais vendidos na livraria oficial da Flip, operada pela Livraria da Travessa. Logo atrás, a homenageada da edição, a poeta Orides Fontela (1940-1998), também marcou presença.
Mas a grande estrela, sem dúvida, foi a filósofa e ativista Angela Davis. Sua participação, que precisou ser transferida para uma tenda com capacidade para 700 pessoas no Sesc Caborê, a 20 minutos de caminhada do centro histórico, foi a mais concorrida do evento. Fila de cinco horas, gente dormindo na calçada para garantir um lugar. “Minha opinião é que está sendo muito difícil entrar nessas coisas muito grandes, mas é algo que nós já esperávamos”, desabafou a designer Juliana Takeuchi, de 36 anos, enquanto esperava para ver Davis.
Para quem não conseguiu vaga, a saída foi explorar as casas menores. “A gente descobriu autores novos, livros que não conhecíamos. Isso é o que realmente importa”, completou a amiga Lyssandra Leite, especialista em dados de 30 anos.
Programação paralela: a alma da Flip
As filas que contornavam quarteirões com cinco horas de antecedência para ver Conceição Evaristo, Carla Madeira, Socorro Acioli e Valter Hugo Mãe mostram que a literatura brasileira está viva e pulsante. Na Casa Caixa de Histórias, na sexta-feira, 24, a disputa por um lugar era quase uma batalha. “É a prova de que o povo quer ouvir histórias que falem de suas realidades”, avaliou uma frequentadora.
O Programa Principal também teve seus momentos de brilho. A mesa que reuniu a alemã Carmen Stephan com o médico brasileiro Drauzio Varella emocionou o público. A troca entre a angolana-portuguesa Djaimilia Pereira de Almeida e o francês-argelino Kamel Daoud foi um exercício de diálogo entre continentes. E a participação virtual de Hisham Matar, que não pôde estar em Paraty, em conversa com o imortal Milton Hatoum, mostrou que a literatura não tem fronteiras.
Falta de energia e cortes no orçamento: os desafios da festa
Nem tudo foi festa. Na noite de quinta-feira, o centro histórico de Paraty ficou às escuras. A Enel atribuiu o apagão a um “problema ambiental”. A programação principal seguiu com a ajuda de um gerador, mas a energia só voltou de madrugada. Um lembrete de que, mesmo em meio à celebração, as desigualdades estruturais do país não desaparecem.
Os cortes no orçamento também pesaram. A curadora Rita Palmeira explicou que a edição de 2026 sofreu com a Copa do Mundo e as eleições. O custo total da festa foi de R$ 11,7 milhões, apenas R$ 100 mil a mais que em 2025. Mas a captação via Lei Rouanet despencou: apenas R$ 3,35 milhões captados até agora, contra R$ 9 milhões no ano passado. “Os cortes são um reflexo da política neoliberal que desmonta a cultura”, criticou um participante.
Mauro Munhoz, diretor artístico da Flip, já havia alertado que os efeitos seriam sentidos em outras ações da organização em Paraty ao longo do ano. A falta de fones de tradução simultânea para o público no Telão da Praça foi um dos sinais visíveis. A voz do intérprete surgia direto no telão, sem a opção de escutar o autor em seu idioma original. “É uma pena, porque a tradução é uma ferramenta de inclusão”, lamentou uma professora presente.
Os números que contam a história
- Público em Paraty: 40 mil pessoas (estimativa preliminar da Prefeitura)
- Taxa de ocupação das pousadas: 100% no Centro Histórico expandido
- Público do Programa Educativo: 15 mil pessoas (26% a mais que em 2025)
- Visualizações no YouTube: 70 mil até o fim da festa
Os livros mais vendidos da Flip 2026
Os dados são da Livraria da Travessa, a livraria oficial do evento:
- Socorro Acioli (CE)
- Valter Hugo Mãe (Portugal)
- Orides Fontela (homenageada)
O que esperar da cultura no Brasil?
A Flip 2026 mostrou que, apesar dos cortes e dos apagões, a literatura segue sendo um espaço de resistência e de encontro. As 40 mil pessoas que circularam por Paraty não foram apenas números. Foram rostos, histórias, esperanças. “A cultura é um direito, não um privilégio. E a Flip é a prova de que, quando o povo se mobiliza, a festa acontece”, resumiu uma frequentadora.
Para quem perdeu, ainda dá tempo de acompanhar os debates no YouTube. E para quem esteve lá, fica a certeza de que a literatura brasileira, com suas vozes plurais e engajadas, está mais viva do que nunca.