Casa de Valéria Almeida no Rio é um abraço de arte popular e memórias
Jornalista e apresentadora da TV Globo transformou apartamento no Leblon em refúgio de férias com decoração que celebra o artesanato brasileiro e a história de cada canto do país. Para ela, a casa é um abraço.
Antes de falar da vista para o Cristo Redentor ou da varanda aberta para o céu do Rio de Janeiro, Valéria Almeida resume o projeto que realizou com o marido, Peterson Gomes, de uma forma que toca o coração: “Eu queria ter um lar com jeito de abraço.” Para a jornalista, uma casa não começa pela arquitetura, mas nasce daquilo que será capaz de acolher: pessoas, histórias e memórias.
O apartamento no Leblon é a realização de um sonho antigo do casal. Apaixonados pela Cidade Maravilhosa muito antes de se conhecerem, os dois repetiam a mesma promessa: um dia teriam um canto no Rio. A vida, porém, sempre esteve em São Paulo, com o trabalho, a rotina e o enteado Lucas, hoje com 20 anos, a quem ela chama de filho de coração. Até que perceberam que, em toda folga, o destino era sempre o mesmo.
“Este apartamento é o meu lar carioca, um espaço para a minha família viver seus momentos de lazer. A gente sempre foi apaixonado pelo Rio. Ter um local aqui já era um sonho desde sempre.”
Reforma guiada pela natureza e pela personalidade
Quando visitaram o imóvel pela primeira vez, o cenário estava longe da versão atual. A estrutura conservava revestimentos antigos, um piso azul gritante e instalações que precisariam ser refeitas por completo. Nada disso desanimou Valéria, que já estava encantada com a varanda, a luminosidade e a ventilação natural. “Eu ignorei o chão. Olhei para aquela janela e para o Cristo.”
Ao lado da arquiteta Amanda Tornelli, o casal promoveu uma reforma completa, da parte elétrica ao encanamento, sempre guiado pela ideia de criar um espaço com personalidade, mas que não parecesse um cenário. “Queríamos um lugar leve, suave, que tivesse a nossa personalidade. Tem coisas que eu acho muito bonitas, mas têm cara de casa dos outros.”
Madeira, barro, fibras naturais e tons ligados à vegetação passaram a conduzir o projeto. O verde aparece na pedra natural do banheiro, no balanço da varanda e em detalhes espalhados pela decoração. O terracota acompanha peças de cerâmica e objetos artesanais.
“A gente brinca que ficou tudo tão natural, tão orgânico, que parece que a casa combina com a natureza que está ali do lado. Nossa casa não termina para então começar a paisagem. Parece uma continuação.”
O resultado é um lugar que convida à permanência, um feito e tanto em uma cidade cuja maior atração costuma estar do lado de fora. “Eu sou caseira, mas para querer ficar em casa estando no Rio de Janeiro tem que ser um lar muito agradável. A concorrência é grande. A gente quer ir à praia, andar na Lagoa, encontrar os amigos... mas também quer voltar para casa.”
Um mapa artesanal do Brasil dentro de casa
A dimensão mais íntima do apartamento se revela na decoração. Quase nenhuma peça chegou ali por acaso: cada objeto carrega um relato, uma viagem, um encontro ou uma lembrança. A coleção de arte popular brasileira, pela qual Valéria é fascinada, começou logo depois do casamento, mas ganhou outro significado quando ela passou seis anos viajando pelo país como integrante do Profissão Repórter.
“A cada viagem eu trazia alguma coisa. Aí os meus amigos começaram a ver essa paixão e passaram a me presentear também. Tudo tem uma história.”
A casa funciona como uma espécie de mapa artesanal do Brasil. Há peças do Vale do Jequitinhonha, de Alagoas, do Tocantins e de tantos outros lugares percorridos ao longo da carreira. Entre elas estão uma jaqueira de cerâmica assinada pela artesã alagoana Sil da Capela, tijolos artesanais produzidos por mulheres da Barrolândia e a pequena Pedidora de Abraço, escultura criada pelos artistas Emeton Kroll e Yran Palmeira, de Caruaru.
“Eu adoro essa Pedidora de Abraço porque sou uma abraçadeira profissional”, afirma. “Eu me apaixono pela capacidade que as pessoas têm de transformar o que é da própria natureza em arte. É o barro, a madeira, a palha, a tinta feita de sementes. Ao mesmo tempo, você vê a personalidade de cada território e um conhecimento que atravessa gerações.”
Valéria, que também é fotógrafa, mesclou no décor retratos de sua autoria feitos durante reportagens, mais cerâmicas, esculturas e objetos produzidos por artesãos de diferentes regiões. “Quando tenho esse tipo de arte em casa, penso: tenho a história das pessoas. E eu gosto de gente.”
O olhar para as pessoas que atravessa a carreira e o lar
Esse é o ponto em que a casa e a profissão se encontram de forma mais evidente. Há 15 anos na TV Globo, a profissional de 43 anos vive um momento significativo da carreira. Desde 2025, está à frente do Paulistar, programa em que percorre bairros da capital paulista e da região metropolitana contando histórias de personagens anônimos. Também participa da transmissão do Carnaval de São Paulo e faz parte do time do Encontro.
O olhar para as pessoas que aparece na telinha é o mesmo que orienta suas viagens e, consequentemente, sua casa. “Quando meu marido e eu viajamos, não é só para visitar um ponto turístico. A gente gosta de parar e conversar com as pessoas. Depois, essas histórias entram na nossa casa.”
Receber visitas é parte da rotina do lar, e a decoração cheia de personalidade costuma virar assunto. “A gente vai comer ou tomar um vinho e surge uma conversa sobre algo legal dentro de casa.” Por isso, é comum os amigos trazerem novas peças de artesanato, bandejas, xícaras ou pequenos objetos brasileiros. Todos sabem que, ali, os presentes não são peças decorativas, mas histórias a serem apreciadas.
Plantas, memórias de infância e conquistas compartilhadas
Outro destaque do apartamento é o cantinho na varanda reservado para as plantas, cultivadas por ela. Valéria cresceu cercada pelos jardins da avó e do pai. Na infância, disputava espaço com os vasos. Hoje, repete o que ouvia lá atrás: “Agora sou essa pessoa que fala: 'Gente, cuidado com a minha planta'”, diz sorrindo.
Na montagem do apartamento, fez questão de escolher cada espécie e colocar as mãos na terra, entre elas uma ficus-lira e uma Maranta Charuto. “Eu mesma queria plantar, colocar aquela muda ali pequenininha e vê-la crescer. Não é enfeite. São as minhas histórias, os meus afetos e as minhas memórias dentro da minha casa.”
Peterson participa de tudo. O marido tem como hobby transformar madeira em móveis, instala quadros e acompanha a decoração. Lucas, filho do casal, também vive cada conquista. “Não tem isso de eu estar na casa dele ou ele estar na minha. É a nossa casa. São as nossas conquistas. E quando as pessoas entram aqui, dizem: 'tem a cara de vocês'.”
Após seis meses de obra, o apartamento recebeu a família em férias. Vieram os amigos, os almoços que viram jantar, as longas conversas e a sensação de habitar um sonho antigo.
“Eu acordo, agradeço, olho para a casa, agradeço, vou trabalhar, agradeço. É importante não banalizar as conquistas, e também não se comparar. As minhas são grandiosas dentro da minha história.”
Quando chega ao apartamento no Leblon, Valéria não enxerga apenas uma vista privilegiada para o Cristo Redentor, mas uma coleção de escolhas ao longo da vida e um sonho construído a muitas mãos. “Quando abro a porta, vem um sorrisão no rosto. Olho para cada canto e penso: é a nossa conquista. É a nossa história. São as nossas escolhas. E isso tem muito valor para mim.”