Chichá-fedorento: universidades públicas descobrem potencial medicinal da árvore que o povo conhece pelo cheiro
Enquanto muita gente torce o nariz quando sente o cheiro forte do chichá-fedorento, pesquisadores das universidades públicas brasileiras estão descobrindo que essa árvore pode ser uma verdadeira farmácia natural. A Sterculia foetida, como é conhecida cientificamente, está sendo estudada na UFRJ e na UENF por suas propriedades medicinais que podem beneficiar a população mais carente.
Originária da Ásia tropical, a árvore se adaptou bem ao Brasil e hoje desperta interesse científico principalmente pelas suas sementes ricas em óleo e compostos que combatem fungos, bactérias, vírus e inflamações. É mais um exemplo de como a ciência pública brasileira trabalha para encontrar soluções acessíveis para a saúde do povo.
Do preconceito pelo cheiro à descoberta científica
O chichá-fedorento pode chegar a mais de 20 metros de altura e tem uma copa que oferece boa sombra, característica valiosa em um país tropical como o nosso. Mas é o cheiro forte das flores, parecido com matéria orgânica em decomposição, que marca a presença da árvore nas cidades.
"Esse odor que incomoda algumas pessoas é, na verdade, uma estratégia da natureza para atrair insetos polinizadores", explica o botânico Marcos Tavares, da UENF. As flores avermelhadas ou amareladas formam frutos estrelados que se abrem para expor sementes escuras e brilhantes, onde se concentram os compostos estudados pelos pesquisadores.
Alimento do povo que pode virar remédio
Em algumas comunidades, as sementes já são usadas como alimento depois de bem torradas, processo que reduz o cheiro e deixa o sabor parecido com outras castanhas. A nutricionista Ana Ribeiro, pesquisadora em alimentos vegetais, destaca que "as sementes são ricas em óleo vegetal e têm boa concentração de gorduras insaturadas, podendo ser exploradas tanto na alimentação quanto na indústria cosmética".
É importante lembrar que as sementes cruas podem conter substâncias tóxicas, por isso o consumo tradicional sempre envolve a torrefação. Mais uma vez, o conhecimento popular se mostra fundamental para orientar a pesquisa científica.
Propriedades medicinais que interessam ao SUS
As pesquisas conduzidas nas universidades públicas vêm mostrando que extratos da Sterculia foetida apresentam atividades diuréticas, antifúngicas, anti-inflamatórias, antiparasíticas, antibióticas e antivirais. São propriedades que poderiam ser muito úteis no Sistema Único de Saúde, oferecendo alternativas naturais e baratas para tratamentos.
"Identificamos compostos com ação sobre fungos patogênicos e protozoários de importância médica. Alguns extratos demonstraram capacidade de reduzir processos inflamatórios em testes laboratoriais", conta Marcos Tavares. Na UFRJ, pesquisadores investigam o potencial contra bactérias resistentes e alguns vírus.
Cautela necessária, mas futuro promissor
Os pesquisadores alertam que ainda não existe fitoterápico registrado no Brasil com base na Sterculia foetida. O uso sem orientação pode ser perigoso, já que alguns compostos podem ser tóxicos em doses elevadas.
"O próximo passo envolve padronizar extratos, aprofundar estudos toxicológicos e avaliar a eficácia em ensaios clínicos controlados", explicam os cientistas. Somente após essas etapas será possível definir se o chichá-fedorento terá papel relevante em medicamentos fitoterápicos acessíveis à população.
Enquanto isso, a árvore que muitos conhecem apenas pelo cheiro forte revela em laboratório um potencial que pode beneficiar milhões de brasileiros. É mais um exemplo de como a pesquisa pública e o conhecimento tradicional podem se unir para gerar soluções que atendam às necessidades do povo, não apenas aos interesses do mercado farmacêutico.