A dor de quem não consegue confiar: quando o passado machuca o presente
Nos consultórios populares e nos postos de saúde do Brasil, uma queixa se repete: "Doutor, eu não consigo confiar em ninguém". É o grito silencioso de quem carrega na alma as marcas de um país onde a desigualdade e a violência destroem vínculos desde a infância.
Para a psicologia, essa dificuldade não é apenas um traço de personalidade. É uma ferida social que se constrói quando o Estado abandona, quando a família se desestrutura pela miséria, quando promessas políticas viram mentiras e quando o próprio sistema nos ensina que confiar é perigoso.
O Brasil que machuca desde pequeno
"Minha mãe trabalhava três empregos e mal me via. Meu pai sumiu quando eu tinha cinco anos. Como vou acreditar que alguém vai ficar?", relata Maria, de 34 anos, moradora da periferia de São Paulo. Seu depoimento ecoa nas clínicas populares de todo o país.
A psicologia explica: traições, mentiras, promessas quebradas e abandonos criam uma memória emocional de que confiar é sinônimo de se machucar. Mas quando essas experiências acontecem em um contexto de pobreza, violência urbana e ausência do Estado, a ferida se aprofunda.
O apego na infância funciona como modelo para as relações adultas. Em um país onde milhões de crianças crescem sem acesso à educação, saúde e segurança adequadas, onde a família precisa se separar para sobreviver, como construir vínculos seguros?
Os sinais de uma sociedade adoecida
A desconfiança se manifesta no cotidiano: checar mensagens do parceiro, interpretar silêncio como rejeição, testar constantemente as pessoas próximas. São comportamentos de quem aprendeu que o mundo é hostil.
Segundo profissionais que atendem nas periferias, os sinais mais comuns incluem:
- Medo intenso de ser enganado, mesmo sem indícios concretos
- Incapacidade de acreditar em demonstrações de afeto
- Afastamento de relações mais próximas
- Sensação constante de solidão
"É como se a pessoa construísse uma armadura para se proteger, mas essa mesma armadura a impede de viver", explica a psicóloga Ana Paula Santos, que atende no SUS há 15 anos.
A cura é possível, mas precisa ser coletiva
A boa notícia é que a capacidade de confiar pode ser reconstruída. A psicoterapia, quando acessível, oferece um espaço seguro onde vínculos podem ser reparados. Mas não podemos esquecer: o problema não é só individual.
Enquanto vivemos em uma sociedade que prega o "cada um por si", que corta investimentos em saúde mental, que destroça famílias com o desemprego e que normaliza a violência, continuaremos produzindo gerações que não conseguem confiar.
A confiança saudável não é ingenuidade. É saber avaliar comportamentos ao longo do tempo, observar coerência entre palavras e ações, ter critérios claros para escolher em quem depositar confiança. É um direito que todos deveriam ter.
Confiar não significa ignorar sinais de desrespeito ou manipulação. Significa ter a chance de construir vínculos em um mundo que nos permita isso. Um mundo mais justo, mais igual, mais humano.