COP 30 vira arma política na eleição do Pará: quem vai herdar o legado?
Quase um ano depois de Belém ter sediado a COP 30, a conferência da ONU que colocou a Amazônia no centro do debate climático mundial, a eleição de 2026 no Pará ganhou um ingrediente novo. Mais do que parques e obras de infraestrutura, o evento deixou um legado político que os candidatos ao governo do estado terão que explicar para o eleitor.
Ao todo, foram R$ 6,12 bilhões investidos na preparação do evento, segundo a página de transparência da Presidência da COP 30. Desse total, R$ 4,24 bilhões são recursos públicos e financiamentos. O dinheiro ajudou a acelerar obras como o Parque da Cidade, os parques lineares da Nova Doca e da Tamandaré, a reforma do Mercado de São Brás e a revitalização do Complexo do Ver-o-Peso, símbolo de Belém.
Mas a pergunta que fica é: quem vai assumir essa herança? E, principalmente, como?
O que a COP 30 mudou na disputa pelo governo do Pará?
Para o cientista político Rodolfo Marques, doutor em Ciência Política pela UFRGS e mestre pela UFPA, a conferência ampliou o repertório das campanhas, mas não substituiu as questões tradicionais do eleitorado. “A COP 30 ampliou o repertório disponível para as campanhas, mas não determinou a agenda da eleição”, afirma.
O desafio, segundo ele, é transformar uma agenda internacional em problemas concretos para a população. Enchentes, moradia, produção agrícola, infraestrutura e os efeitos das mudanças climáticas são as portas de entrada para esse debate.
Marques também aponta que a disputa de 2026 será marcada por um confronto narrativo entre continuidade e ruptura. “O principal confronto narrativo de 2026 é entre continuidade e ruptura. A disputa é para definir qual interpretação do Brasil atual prevalecerá”, diz.
Quem são os candidatos e como eles usam o legado da COP 30?
A atual governadora Hana Ghassan, que presidiu o comitê responsável pela COP 30, defende os investimentos e o que considera o legado da conferência. Já Dr. Daniel, que aparece com ela na liderança das pesquisas, critica os gastos bilionários e aponta problemas em obras emblemáticas, como a Avenida Liberdade.
Para a professora Ana Cláudia Cardoso, da Universidade Federal do Pará, nem tudo o que foi construído deve ser avaliado da mesma forma. “Tem obras que eram fundamentais para a COP e outras que são obras de oportunidade. A COP permitiu que determinadas obras fossem financiadas e executadas em uma velocidade que provavelmente não aconteceria sem esse recurso”, explica.
O legado da COP 30 é também uma disputa sobre o modelo econômico
O economista Kleber Mourão, presidente do Corecon-PA/AP, lembra que a COP 30 deu visibilidade internacional ao Pará, mas isso só terá efeito se virar estratégia econômica. “A COP mostrou para o mundo a dimensão, a complexidade e também o potencial da Amazônia. O mundo veio até a Amazônia para discutir a Amazônia. Isso tem um valor estratégico enorme”, afirma.
Mourão defende que o Pará saia da lógica de extração e exportação de produtos primários para uma economia com industrialização mais madura, diversificada e com geração de melhores empregos. “O nosso grande desafio é sair de uma economia baseada na extração e exportação de produtos primários ou semielaborados para uma economia com industrialização mais madura, diversificada, com produção de bens de maior valor agregado, tecnologia e melhores empregos”, diz.
Ele também critica a equação atual que penaliza quem preserva a floresta. “Hoje existe um custo para quem mantém a floresta em pé e um valor muito grande para quem consegue explorar determinados recursos. Essa equação precisa ser revista”, opina.
O que deveria virar política de Estado no Pará?
Beto Veríssimo, cofundador e pesquisador sênior do Imazon, é direto: a agenda ambiental precisa ser política de Estado, não de governo. “Essa precisa ser uma agenda de Estado para os próximos dez anos, e não apenas uma agenda de governo”, afirma.
A primeira prioridade, segundo ele, é reduzir o desmatamento para menos de 30 mil hectares por ano e ampliar a restauração de áreas degradadas. “O primeiro grande desafio é eliminar o desmatamento nos próximos anos. E não é só parar de desmatar. É também começar a plantar árvores nativas em áreas que já foram desmatadas”, declara.
Veríssimo também aposta na bioeconomia e na restauração florestal como novas frentes econômicas. “O Pará já é o estado brasileiro que mais planta árvores nativas para esse mercado. Então existe uma oportunidade muito concreta de transformar a restauração em atividade econômica”, afirma. Ele defende ainda a rastreabilidade da cadeia pecuária, a regularização fundiária e a redução de custos para negócios de baixo carbono.
Belém: a cidade que ficou da COP 30
Na capital, o desafio é adaptar a cidade às mudanças climáticas. Ana Cláudia Cardoso critica a lógica de concreto e canalização que ainda domina as obras e defende soluções baseadas na natureza. “Em 2026, todo mundo está falando de renaturalização. Só que a população precisa entender o que isso significa. A vegetação reduz a temperatura, ajuda a absorver a água e regula o volume de água. Isso é uma infraestrutura que funciona”, afirma.
Ela alerta que a infraestrutura do passado não vai funcionar para o clima do presente. “Não adianta simplesmente fazer mais do mesmo. A infraestrutura que foi dimensionada para o clima do passado não necessariamente vai funcionar para o clima que estamos tendo agora”, diz a urbanista.
O que esperar da agenda climática nas urnas?
A COP 30 não é um tema isolado na campanha, mas uma lente para enxergar o futuro do estado. Os candidatos terão que explicar como vão lidar com o desmatamento, a bioeconomia, a adaptação das cidades e o modelo de desenvolvimento.
Beto Veríssimo estabelece metas concretas: menos de 30 mil hectares de desmatamento por ano, rastreabilidade de pelo menos 80% do rebanho bovino, expansão da bioeconomia e restauração de áreas degradadas. “Se daqui a quatro anos a gente conseguir olhar para o Pará e ver menos desmatamento, mais restauração, uma bioeconomia maior e mais empregos verdes, aí teremos evidências de que essa transição está acontecendo”, afirma.
Kleber Mourão amplia a cobrança para o campo econômico. “Precisamos pensar em aproximadamente oito milhões de paraenses e em como gerar desenvolvimento para essa população. A Amazônia não pode ser vista apenas como fornecedora de matéria-prima”, diz.
E Ana Cláudia resume a cobrança para a cidade: “Não basta construir. É preciso acompanhar, manter e avaliar se aquilo está funcionando.”
Perguntas frequentes sobre o legado da COP 30 na eleição do Pará
A COP 30 é um tema central na eleição de 2026?
Não. A COP 30 ampliou o repertório de temas, mas não substituiu as questões tradicionais do eleitorado, como emprego, saúde e infraestrutura. O desafio é conectar a agenda climática a problemas concretos do dia a dia.
Quanto foi investido na preparação da COP 30?
Foram R$ 6,12 bilhões, sendo R$ 4,24 bilhões em investimentos públicos e financiamentos. Os recursos bancaram obras como o Parque da Cidade, os parques lineares e a revitalização do Ver-o-Peso.
Quais são as principais metas ambientais para o próximo governo do Pará?
Reduzir o desmatamento para menos de 30 mil hectares por ano, ampliar a restauração florestal, garantir a rastreabilidade de pelo menos 80% do rebanho bovino e expandir a bioeconomia.