Copa 2026: Uruguai estreia contra Arábia Saudita e o futebol de bilhões da monarquia
O Uruguai faz sua estreia na Copa do Mundo de 2026 nesta segunda-feira (15), em Miami, contra uma Arábia Saudita que despejou quase US$ 2 bilhões em petrodólares para comprar estrelas estrangeiras, mas sufocou os próprios atletas locais. A Celeste chega à partida com desfalques cruciais como Giorgian De Arrascaeta, Ronald Araújo e José María Giménez, e precisa reencontrar a identidade que a fez vencer Argentina e Brasil sob o comando de Marcelo Bielsa.
Desfalques e incertezas marcam a estreia da Celeste em Miami
A campanha uruguaia na América do Norte começa pelo Grupo H, que também traz a Espanha, atual campeã europeia, e Cabo Verde, considerado o azarão. O adversário desta segunda é teoricamente acessível, mas a realidade do time comandado por Bielsa é de muitas dúvidas.
A incógnita é grande. O Uruguai será o time brilhante do início do ciclo do técnico argentino, em 2023 e 2024, quando conquistou vitórias de destaque sobre Argentina e Brasil? Ou vai repetir a atuação desastrosa da goleada por 5 a 1 para os Estados Unidos em amistoso de novembro passado?
Contra a Arábia Saudita, Bielsa não poderá contar com De Arrascaeta, seu meio-campista mais criativo, que perderá pelo menos as duas primeiras partidas por lesão muscular. Os defensores Ronald Araújo, com lesão leve na panturrilha, e José María Giménez, capitão da equipe se recuperando de entorse no tornozelo, também dificilmente participarão da estreia.
Além dos contratempos físicos, o treinador precisa encontrar a fórmula para que seu estilo de pressão sufocante e ataques diretos se traduza em gols, algo que nem sempre aconteceu nos últimos meses.
Petrodólares e sportswashing: o modelo saudita que exclui os trabalhadores do futebol
A monarquia do Golfo investiu quase US$ 2 bilhões, cerca de R$ 10,12 bilhões na cotação atual, no futebol ao longo de três anos. O objetivo declarado é transformar a Saudi Pro League em uma das competições mais atraentes do mundo, contratando jogadores como Cristiano Ronaldo e Karim Benzema.
Mas esse modelo de negócio tem um custo humano alto. A chegada de estrelas estrangeiras reduziu drasticamente o tempo de jogo dos atletas locais, e a seleção saudita tem enfrentado dificuldades para manter um alto nível de desempenho. Uma sequência de derrotas em março custou o cargo do técnico francês Hervé Renard, substituído pelo treinador grego Georgios Donis. A equipe só garantiu sua vaga na Copa por meio da repescagem asiática.
O caso de Darwin Núñez ilustra bem essa dinâmica. O centroavante uruguaio teve uma temporada difícil no Al-Hilal, onde a contratação do francês Benzema em fevereiro o deixou sem vaga no elenco para o campeonato nacional. Um trabalhador descartado por outro trabalhador que foi comprado por um regime absolutista. É a lógica do mercado se impondo sobre o esporte e sobre a vida das pessoas.
A primeira partida nos Estados Unidos exigirá que a seleção saudita eleve seu nível contra um adversário da elite do futebol. Os atletas locais, sufocados pela falta de minutos em campo, terão que provar que sobrevivem além do espetáculo comprado.
Valverde e Bielsa: a resistência de um futebol de entrega
Apesar das incertezas recentes, a Celeste tem armas para competir. Seu meio-campo conta com jogadores experientes como Rodrigo Bentancur, do Tottenham, e Manuel Ugarte, do Manchester United, ao lado de seu principal destaque, Federico Valverde, do Real Madrid.
Valverde será peça-chave. Seu comprometimento defensivo, sua entrega incansável e sua capacidade de chegar ao ataque fazem dele um jogador indispensável para Bielsa. O jogador buscará deixar para trás uma temporada difícil no Real Madrid, que terminou com uma multa de meio milhão de euros, cerca de R$ 2,9 milhões, aplicada pelo clube após uma briga com o francês Aurélien Tchouaméni.
O Uruguai também conta com um técnico que já sabe o que é preciso para comandar uma equipe em uma Copa do Mundo. Bielsa fez isso à frente da Argentina no torneio de 2002, na Coreia do Sul e no Japão, e como treinador do Chile na África do Sul, em 2010. Na Copa América de 2024, realizada nos Estados Unidos, El Loco levou o Uruguai ao terceiro lugar.
Apoós a estreia na segunda-feira, a seleção bicampeã mundial, em 1930 e 1950, enfrentará Cabo Verde em Miami, no dia 21 de junho, e a Espanha em Guadalajara, no dia 26 de junho.
Como o investimento bilionário saudita afeta os jogadores locais?
A injeção de quase US$ 2 bilhões em contratações estrangeiras reduziu o tempo de jogo dos atletas sauditas em seus próprios clubes. A seleção sente o impacto direto, com queda de desempenho e instabilidade técnica, culminando na demissão do técnico Hervé Renard e na vaga na Copa conquistada apenas pela repescagem.
Quais são os desfalques confirmados do Uruguai na estreia?
O Uruguai não terá Giorgian De Arrascaeta, lesionado muscular, por pelo menos duas partidas. Ronald Araújo, com lesão na panturrilha, e o capitão José María Giménez, com entorse no tornozelo, também dificilmente jogam contra a Arábia Saudita.
Por que Darwin Núñez ficou sem vaga no Al-Hilal?
A contratação de Karim Benzema pelo Al-Hilal em fevereiro tirou Núñez do elenco registrado para o campeonato nacional saudita. O caso exemplifica como o modelo de compras milionárias da liga saudita descarta trabalhadores do futebol sem garantias.