El Niño mais forte da história? Met Office alerta para impacto brutal no clima
O mundo pode estar à beira de um dos fenômenos climáticos mais devastadores já registrados. O Met Office, serviço meteorológico do Reino Unido, emitiu um alerta contundente: o El Niño que se forma no Oceano Pacífico pode se tornar o mais forte da história recente. E os números assustam até os cientistas mais experientes.
“Eu nunca vi um sinal de El Niño tão intenso em nossas previsões”, afirmou Adam Scaife, chefe de previsão de longo prazo do Met Office. A declaração não é exagero. As temperaturas da superfície do Pacífico em uma das principais áreas de monitoramento já estão mais de 2°C acima da média. E as projeções indicam que esse aquecimento pode superar 3°C quando o fenômeno atingir seu pico, no fim deste ano.
Se isso se confirmar, estaríamos diante de um nível sem precedentes nos registros modernos, que começam em 1950. E talvez o episódio mais forte desde o século XIX. Alguns grupos de pesquisa vão além: projetam um aquecimento de até 4°C, o que tornaria este o El Niño mais intenso dos últimos 500 ou até 1.000 anos.
O que está acontecendo no Pacífico?
O El Niño é um fenômeno natural que ocorre a cada dois a sete anos e dura cerca de um ano. Ele acontece quando os ventos alísios, que normalmente sopram de leste para oeste sobre o Pacífico, enfraquecem ou mudam de direção. Com isso, águas quentes se deslocam para o leste, transferindo calor para a atmosfera e alterando os padrões de vento e chuva no mundo todo.
O que chama atenção agora é a intensidade. Em algumas áreas do Pacífico profundo, as águas estão cerca de 8°C acima do normal a 100 metros de profundidade. Esse enorme estoque de água quente é como uma reserva de energia que alimenta o fenômeno.
“Temos muitos meses pela frente enquanto esse evento continua se desenvolvendo”, disse Zeke Hausfather, cientista climático da Berkeley Earth. Para ele, isso aumenta a confiança na possibilidade de que o episódio estabeleça um recorde.
Quais serão os impactos no mundo?
O El Niño não age igual em todo o planeta. Ele aumenta a probabilidade de chuva em algumas regiões e de seca em outras. Os primeiros sinais já aparecem: na Índia, as chuvas da monção estão abaixo da média em 2026, um efeito típico do fenômeno.
Em regiões próximas ao Pacífico tropical, o risco de seca e incêndios cresce. Já Peru, Equador e o sul dos Estados Unidos devem enfrentar mais chuvas e inundações. A agricultura também sofre: episódios anteriores causaram perdas em colheitas de café, arroz e cacau, pressionando os preços e quebrando cadeias de abastecimento.
Segundo a FAO, braço da ONU para alimentação e agricultura, o fenômeno atual pode ameaçar dezenas de milhões de pessoas em países vulneráveis com níveis críticos de insegurança alimentar. É a face mais cruel do clima: quem menos contribui para o aquecimento global é quem mais sofre com ele.
E o Atlântico? Menos furacões, mas nem tudo é alívio
Um efeito aparentemente contraditório do El Niño aparece no Atlântico. As mudanças na circulação dos ventos sobre o Caribe e o Atlântico tropical podem reduzir a atividade de furacões. Até agora, a temporada de 2026 registrou apenas três tempestades nomeadas.
Mas isso não significa alívio geral. O fenômeno não intensifica todos os tipos de eventos extremos; seus efeitos dependem da região e do sistema climático envolvido. E, no Reino Unido, espera-se um outono e início de inverno mais chuvosos e tempestuosos, além de possível frio no fim do inverno.
O aquecimento global está tornando o El Niño pior?
Essa é uma questão em aberto. O El Niño é natural, e a Organização Meteorológica Mundial afirma que não há evidências de que a mudança climática esteja aumentando sua frequência ou intensidade. Mas o IPCC, painel da ONU sobre mudanças climáticas, apontou que a intensidade dos episódios parece ter aumentado desde 1950, embora haja grandes oscilações ao longo de milhares de anos.
O que não está em disputa é que o El Niño atual acontece em um planeta muito mais quente. A temperatura média global já subiu cerca de 1,4°C desde o fim do século XIX, principalmente por causa da queima de combustíveis fósseis. Quando o El Niño libera calor adicional do oceano para a atmosfera, o efeito é um aumento temporário da temperatura média global, especialmente no ano seguinte ao pico.
Por isso, o Met Office considera muito provável que 2027 substitua 2024 como o ano mais quente já registrado. A combinação de um dos fenômenos naturais mais fortes do Pacífico com um planeta já aquecido pela ação humana é uma receita perigosa.
O resultado será um período de maior risco de eventos climáticos extremos em diferentes partes do mundo. E, como sempre, os mais pobres serão os mais atingidos. Fica o alerta: ou a humanidade age com urgência para reduzir as emissões, ou continuaremos a pagar um preço cada vez mais alto por um futuro que já está batendo à nossa porta.