Europa se rearma contra Rússia: o retorno da lógica da Guerra Fria
Enquanto os povos europeus enfrentam crises econômicas e cortes nos serviços públicos, os chefes militares da Alemanha e Reino Unido pedem mais dinheiro para armamentos. Em artigo conjunto publicado no domingo (15/02), eles defenderam o fim dos "dividendos da paz" do pós-Guerra Fria, quando os gastos militares foram reduzidos.
O general alemão Carsten Breuer e o marechal britânico Richard Knighton falam como "vozes de uma Europa que precisa confrontar verdades desconfortáveis". Mas que verdades são essas? A de que bilhões de euros serão desviados da saúde, educação e habitação para alimentar a indústria bélica?
O discurso do medo como justificativa
Na 62ª Conferência de Segurança de Munique, onde se reuniram as elites políticas e militares ocidentais, o tom foi unânime: a Rússia representa uma ameaça existencial. Segundo os militares, Moscou "mudou decisivamente para o Ocidente" e está se rearmando de forma perigosa.
A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, não poupou palavras ao denunciar o "imperialismo russo". Mas será que essa retórica belicosa serve aos interesses dos trabalhadores europeus ou das grandes corporações do setor de defesa?
Alemanha: 108 bilhões para a guerra
O exemplo mais gritante vem da Alemanha, que destinou um orçamento recorde de 108 bilhões de euros (R$ 670 bilhões) para as Forças Armadas este ano. Esse valor astronômico é financiado justamente num período de austeridade, quando os alemães sofrem com cortes nos programas sociais.
O chanceler Friedrich Merz promete que a Alemanha terá "as Forças Armadas mais fortes da Europa". Enquanto isso, o ministro da Defesa Boris Pistorius espalha o pânico afirmando que a Rússia pode atacar a OTAN já em 2029.
"Pela primeira vez, as Forças Armadas alemãs estão encomendando milhares de drones de combate", revela o artigo. Uma parceria com a Ucrânia prevê a produção de 10 mil drones por ano. Quem lucra com essa corrida armamentista? Certamente não são os trabalhadores.
Reino Unido e UE: união pela guerra
Dez anos após o Brexit, Londres e Bruxelas encontraram um terreno comum: o rearmamento. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou em Munique que "nosso futuro está mais ligado do que nunca".
Os militares pedem "infraestrutura resiliente" e "pesquisa em alta tecnologia". Traduzindo: mais recursos públicos para a indústria bélica privada. A UE já planeja injetar 150 bilhões de euros no setor de defesa.
Quem paga a conta?
Enquanto os generais falam em "componente moral" do rearmamento, a realidade é cruel para os povos europeus. Hospitais fecham, escolas carecem de recursos, e a habitação se torna inacessível. Mas há dinheiro infinito para comprar armas.
Essa lógica de confronto serve aos interesses do complexo militar-industrial, não à paz e à segurança dos trabalhadores. A verdadeira segurança vem de investimentos em educação, saúde, emprego digno e justiça social.
A Europa escolhe o caminho da militarização enquanto seus povos clamam por dignidade e direitos sociais. É preciso questionar: a quem serve essa nova corrida armamentista?