Família explora vulnerabilidade e rouba R$ 250 mil de mulher em luto
Uma trabalhadora de 54 anos foi vítima de um golpe cruel que custou R$ 250 mil de seus bens. Aproveitando-se do estado de fragilidade da mulher, que sofria com depressão após a morte da mãe, uma família inteira se organizou para aplicar um esquema criminoso disfarçado de "tratamento espiritual".
O caso, que aconteceu em São Paulo entre novembro de 2018 e janeiro de 2019, expõe como os golpistas se aproveitam das vulnerabilidades humanas para enriquecer às custas do sofrimento alheio. Cinco pessoas da mesma família foram condenadas por estelionato, decisão mantida pelo Tribunal de Justiça paulista em dezembro de 2025.
O encontro que mudou tudo
Tudo começou quando a vítima conheceu Márcia Kwiek em um shopping da Zona Oeste de São Paulo. A estelionatária, usando nome falso, percebeu rapidamente o estado emocional fragilizado da mulher e se aproximou com falsas promessas de cura.
"Seu coração está preto", disse Márcia à vítima, oferecendo práticas sobrenaturais de "purificação". Era o início de uma manipulação psicológica que duraria meses e custaria uma fortuna à trabalhadora.
Rituais falsos e exploração real
A partir dos primeiros encontros, a vítima passou a frequentar a casa de Márcia, onde participava de rituais descritos como "incomuns e singulares". Durante esse período, entregou:
- R$ 135 mil em dinheiro
- R$ 100 mil em joias
- R$ 15 mil em outros bens pessoais
Os criminosos afirmavam que todos esses valores seriam queimados como parte do processo de purificação espiritual. A mulher, já completamente manipulada, acreditava que a destruição dos bens era necessária para superar seus problemas emocionais.
A farsa do "tambor incandescente"
No episódio mais cruel do golpe, a vítima levou uma grande quantia em dinheiro e joias até a residência, acreditando que tudo seria destruído em um "tambor incandescente". No local estavam Márcia, seu marido Alexander Jovanovich Queiroz, os filhos Larissa e Wladimir, e a nora Kathleen Nicolini Iwanovich.
O esquema era bem organizado: os valores foram embrulhados em papel, a vítima foi induzida a fechar os olhos e se deitar sobre um lençol branco. Nesse momento, houve a troca dos embrulhos. Um pacote diferente foi lançado ao fogo, enquanto o dinheiro e as joias permaneceram com os criminosos.
Justiça tardia, mas necessária
Após meses de "tratamento", o estado emocional da trabalhadora não melhorou. Foi então que ela percebeu ter sido enganada e procurou a Polícia Civil, registrando ocorrência na 94ª Delegacia da capital.
O juiz Fernando Augusto Andrade Conceição foi claro em sua decisão: "Os acusados, imbuídos de dolo, através de várias reuniões, sempre com a finalidade de dar-lhe conforto espiritual, receberam em troca dinheiro, joias e outros bens materiais".
A defesa tentou desclassificar o crime para curandeirismo, mas o argumento foi rejeitado. Para o magistrado, ficou evidente que a intenção era obter vantagem patrimonial explorando a vulnerabilidade da vítima.
O Tribunal de Justiça manteve a condenação por unanimidade, reconhecendo que houve exploração da credulidade da vítima e que os réus atuaram em conjunto para mantê-la em erro.
Um alerta necessário
Este caso expõe como pessoas em situação de vulnerabilidade emocional se tornam alvos fáceis de criminosos sem escrúpulos. Em uma sociedade que ainda não oferece suporte psicológico adequado e acessível para todos, golpistas se aproveitam do desespero alheio para enriquecer.
A condenação desta família criminosa representa um pequeno alívio, mas o estrago já estava feito. R$ 250 mil podem representar toda uma vida de trabalho e economias de uma pessoa comum.