Rio faz história: primeiro transplante isolado de intestino é realizado com órgão doado em Caxias
Uma família em luto transformou a dor em esperança e abriu caminho para um feito inédito na medicina fluminense. O Hospital Municipalizado Adão Pereira Nunes (HMAPN), em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, foi o ponto de partida para o primeiro transplante isolado de intestino do estado do Rio de Janeiro. Tudo começou com a doação de órgãos de uma criança, autorizada pelos pais após o diagnóstico de morte encefálica.
O órgão foi captado no próprio HMAPN por uma equipe de alta complexidade liderada pelo Dr. Eduardo Fernandes, chefe do Serviço de Cirurgia do Hospital Adventista Silvestre. O transplante aconteceu no mesmo dia, em unidade hospitalar especializada, com o intestino em pleno funcionamento. Um avanço e tanto para quem vive com falência intestinal, condição em que o corpo perde a capacidade de absorver nutrientes e a pessoa depende de nutrição parenteral por longos períodos.
Números que salvam vidas: 705 órgãos captados em quase cinco anos
O HMAPN não é novato quando o assunto é doação. Entre janeiro de 2022 e agosto de 2026, a unidade captou 705 órgãos e tecidos para transplantes. O diretor geral do hospital, Dr. Thiago Resende, destaca o significado desse trabalho:
“Um resultado que representa quase cinco anos de trabalho desde a municipalização e, acima de tudo, vidas transformadas por meio da doação e do transplante de órgãos.”
Por trás desses números, existe uma engrenagem complexa e profundamente humana. A equipe da e-DOT (Equipe Hospitalar de Doação para Transplantes) foi responsável por acolher a família em um dos momentos mais delicados da vida. O CTI Pediátrico cuidou da criança e manteve as condições para que a doação fosse possível. Cada profissional, cada etapa, cada gesto de cuidado fez diferença.
Família autoriza doação em meio à dor e abre caminho para procedimento pioneiro
A decisão dos pais de autorizar a doação veio em um momento de profunda dor. Mas foi esse gesto de solidariedade que permitiu que o Rio de Janeiro realizasse, pela primeira vez, um transplante isolado de intestino. No Brasil, a doação de órgãos depende da autorização familiar, e essa família escolheu transformar o luto em vida para outras pessoas.
Gilberto Malvar, coordenador de enfermagem da e-DOT, ressalta a importância do trabalho em equipe:
“A atuação da nossa e-DOT e do CTI Pediátrico demonstram a importância do trabalho multidisciplinar para transformar uma situação de perda em uma possibilidade concreta de vida para outras pessoas.”
Transplante de intestino: um novo capítulo na saúde pública brasileira
O transplante de intestino é um procedimento de altíssima complexidade, indicado para pacientes com falência intestinal crônica que enfrentam complicações graves por causa da nutrição parenteral. A incorporação do transplante de intestino e do transplante multivisceral ao Sistema Nacional de Transplantes ampliou as chances de tratamento. Agora, com esse primeiro caso no Rio, a esperança se espalha por mais um estado.
Essa história não é só sobre medicina de ponta. É sobre gente. É sobre uma família que, em meio à perda, pensou no próximo. É sobre profissionais de saúde que não medem esforços. É sobre um sistema público que, quando bem financiado e organizado, salva vidas. E é um lembrete poderoso: doar órgãos é um ato de amor que pode transformar a dor em recomeço.