Nordeste lidera mortes no trânsito: desigualdade mata nas estradas brasileiras
Pela primeira vez na história, o Nordeste se tornou a região com mais mortes no trânsito do Brasil. Os números são alarmantes: 11.894 óbitos em 2024, superando o Sudeste, que registrou 10.995 mortes. Essa inversão revela uma face cruel da desigualdade brasileira, onde a falta de investimento público cobra seu preço mais alto: vidas humanas.
Os dados, divulgados pela organização Vital Strategies com base em informações do Ministério da Saúde, mostram que 37.150 pessoas morreram no trânsito em 2024, um aumento de 6,5% em relação ao ano anterior. É o maior número desde 2016.
A geografia da morte: onde falta Estado, sobra tragédia
A comparação entre as frotas regionais expõe uma realidade perversa. Enquanto o Sudeste possui 59 milhões de veículos cadastrados, mais que o dobro dos 22,3 milhões do Nordeste, a região nordestina lidera em mortes. Isso não é coincidência, é consequência do abandono histórico.
"É comum nas periferias você ver famílias em motos que têm capacidade para levar apenas duas pessoas", relata Dante Rosado, coordenador do programa de segurança viária da Vital Strategies. Essa realidade retrata o Brasil que trabalha, que se vira como pode para sobreviver, mas que paga com a vida pela ausência de políticas públicas adequadas.
Motocicletas: o transporte da necessidade vira armadilha mortal
No Nordeste, 6.116 pessoas em motos perderam a vida, número 60% maior que no Sudeste. Mais da metade das mortes no trânsito na região (51,4%) envolveu motociclistas. No Norte, o percentual chega a 53%.
A motocicleta se tornou o meio de transporte da classe trabalhadora brasileira. Para muitos, é a única forma de chegar ao trabalho, de levar os filhos à escola, de garantir o sustento da família. Mas quando falta infraestrutura adequada, fiscalização eficiente e transporte público de qualidade, essa necessidade se transforma em sentença de morte.
Estradas que matam: o preço do descaso
Não é por acaso que 6 das 12 rodovias classificadas como péssimas pela CNT estão no Nordeste. O levantamento da Confederação Nacional dos Transportes analisou pavimento, sinalização e geometria das estradas. O resultado é um mapa da negligência estatal.
"Tem faltado compromisso com a segurança viária", denuncia Diogo Lemos, da Iniciativa Bloomberg para Segurança Viária Global. "É preciso atuação nacional para se chegar ao pequeno município, com grande ação de nível estadual. Não basta investir só em asfalto, mas em infraestrutura e fiscalização."
Governo Lula responde, mas desafio é gigantesco
O governo federal reconhece a gravidade da situação e anuncia medidas como o programa CNH Brasil e a MP do Bom Condutor. "Mais de 20 milhões de pessoas dirigem sem CNH no Brasil", admite o Ministério dos Transportes.
O Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans) estabelece a meta ambiciosa de reduzir em 50% as mortes no trânsito até 2030. Mas para que isso saia do papel, será preciso muito mais que boas intenções.
A luta pela vida nas estradas
Os especialistas são unânimes: a solução passa por investimento massivo em transporte público, melhoria da infraestrutura viária e fiscalização eficiente. Mas, acima de tudo, é preciso entender que segurança no trânsito é direito fundamental, não privilégio de quem vive em regiões mais desenvolvidas.
Cada número dessa estatística representa uma família destroçada, sonhos interrompidos, futuros ceifados. No Brasil da desigualdade, até o direito de ir e vir com segurança se tornou questão de classe social. É hora de mudar essa realidade.