O direito ao ócio: por que o tédio é resistência anticapitalista
Sistema capitalista nos empurra para a produtividade constante, mas psicóloga defende que parar de fazer nada é ato revolucionário contra a exploração do nosso tempo
Quantas vezes você já se sentiu culpado por não estar fazendo nada? Essa sensação não é à toa. Vivemos numa sociedade que transformou cada minuto do nosso dia em mercadoria, onde não produzir é quase um pecado. Mas a psicóloga Cristiane Lang traz um recado libertador: reaprender o tédio é um ato de resistência.
"O tédio não é ausência, é território", explica a especialista. "A gente desaprendeu a viver o tédio porque fomos condicionados pelo sistema a acreditar que qualquer espaço vazio é improdutivo, é desperdício."
A armadilha da produtividade constante
Não é coincidência que nossa sociedade capitalista nos ensine desde cedo que tempo é dinheiro. Essa lógica perversa faz com que até nossos momentos de descanso sejam transformados em consumo: Netflix, redes sociais, compras online. Sempre algo para preencher o "vazio".
"Hoje, qualquer espaço vazio vira incômodo. Qualquer silêncio precisa ser ocupado, mesmo sem necessidade. Como se ficar sem fazer nada fosse sinal de desleixo", critica Cristiane.
Essa pressão constante não atinge todo mundo igual. Quem trabalha mais horas, ganha menos e tem menos direitos - a classe trabalhadora - sofre ainda mais com essa culpa do ócio. Enquanto isso, os ricos podem se dar ao luxo de "não fazer nada" sem julgamento.
Nos relacionamentos, o tédio é intimidade real
A psicóloga aponta que essa dificuldade com o tédio também afeta nossos relacionamentos. "É no 'não fazer nada' que o vínculo se revela. Quem não tolera o tédio costuma confundir presença com estímulo constante, e isso cansa."
Ficar juntos sem a obrigação de transformar cada encontro em algo instagramável, sem performance, sem consumir algo - isso sim é intimidade verdadeira. "Quando o tédio deixa de ser evitado, ele vira intimidade", resume.
Criatividade nasce do vazio, não do consumo
Cristiane defende que a criatividade - tanto artística quanto emocional - só floresce quando temos espaços vazios na mente. "Quando tudo é preenchido, não sobra espaço para criar nada novo. A repetição automática substitui a escolha consciente."
Isso significa encontrar "novas formas de conversar, de demonstrar afeto, de resolver conflitos" - habilidades essenciais para construir uma sociedade mais justa e solidária.
Como reconquistar o direito ao ócio
A especialista sugere começar pequeno: alguns minutos sem nenhum estímulo, sem música, TV, livro ou celular. "Se acostumar com o tédio não acontece de forma imediata, porque fomos treinados por anos a evitar isso."
O processo leva tempo - de duas a quatro semanas para quem vive em constante ocupação. Mas vale a pena: "O que antes parecia insuportável passa a ser necessário. Aquilo que parecia vazio era, na verdade, espaço."
Reaprender o tédio é, no fundo, reaprender a ser humano. É resistir à lógica capitalista que quer transformar cada segundo da nossa existência em lucro para poucos. É reconquistar nosso direito ao tempo, à pausa, à contemplação.
Porque uma sociedade que não consegue parar é uma sociedade doente. E curar essa doença passa por valorizar o que não produz capital, mas produz vida: o simples direito de existir sem pressa.