Reino Unido ataca 'Brazilian butt lift': mais uma ofensiva contra padrões de beleza do Sul Global
Mais uma vez, o Norte Global se mobiliza contra práticas estéticas que carregam o nome do nosso país. O Parlamento inglês publicou nesta quarta-feira (18/2) um documento que recomenda restringir apenas a médicos o direito de realizar o 'Brazilian butt lift' e outros procedimentos considerados de alto risco.
O Comitê de Mulheres e Igualdade do Reino Unido alega que a falta de regulamentação criou um mercado "sem lei" onde procedimentos chegam a ser realizados "em imóveis alugados pelo Airbnb, quartos de hotel, galpões de jardim e banheiros públicos".
A hipocrisia do sistema de saúde privatizado
É revelador que um país com sistema de saúde cada vez mais privatizado, onde o acesso a tratamentos básicos vira privilégio de classe, agora se preocupe tanto com a "segurança" de procedimentos estéticos. A verdade é que o Reino Unido criou as condições para esse mercado desregulamentado ao sucatear seu sistema público de saúde.
"Durante nossa investigação, o comitê ouviu um depoimento impactante e chocante de uma mulher que desenvolveu sepse depois de se submeter a um 'BBL líquido'", declarou Sarah Owen, presidente do colegiado. Mas onde estava essa preocupação quando cortaram verbas da saúde pública?
O drama humano por trás da desregulamentação
O caso de Sasha Dean, britânica que entrou em coma após o procedimento, expõe a cruel realidade: "Tudo se transformou em um verdadeiro pesadelo muito rapidamente. Tive um ataque cardíaco, um dos meus pulmões colapsou, meus rins estavam falhando".
Dean passou cinco dias em coma induzido e hoje vive com sequelas: "Foram os últimos dois anos mais horríveis. Perdi todo o meu cabelo, tenho problemas cognitivos, de visão. É uma batalha constante. Honestamente, arruinou minha vida."
Seu relato é um grito de alerta sobre como a mercantilização da saúde transforma corpos em campos de lucro para aventureiros sem qualificação.
No Brasil, a luta por regulamentação avança
Enquanto isso, no Brasil, a regulamentação caminha com mais seriedade. O Conselho Federal de Medicina já pediu à Anvisa a proibição do PMMA em procedimentos estéticos após uma onda de complicações e mortes. Aqui, apenas profissionais habilitados pelos conselhos de classe podem realizar a "harmonização de bumbum" com ácido hialurônico.
O BBL tradicional, conhecido como gluteoplastia, continua sendo o procedimento com maior índice de mortalidade entre as cirurgias plásticas. Recebeu o nome "Brazilian butt lift" numa clara referência racializada à anatomia das mulheres brasileiras, mais uma forma de exotizar e mercantilizar nossos corpos.
A urgência de uma resposta popular
Um estudo da University College London revelou que existem mais de 5.500 clínicas oferecendo tratamentos estéticos não cirúrgicos no Reino Unido, onde apenas um terço dos profissionais são médicos qualificados. Alguns fazem apenas cursos online antes de atender pacientes.
O governo britânico promete implementar um sistema de licenciamento até 2029, mas uma porta-voz do Departamento de Saúde não estabeleceu prazos concretos. Típico de um sistema que prioriza o lucro sobre vidas humanas.
Enquanto criminalizam nossos padrões de beleza, exportam um modelo de saúde que mata. É hora de questionar: quem realmente está colocando vidas em risco?