O espião russo que se passou por brasileiro por 15 anos e foi expulso do país
O governo brasileiro determinou a expulsão de Sergey Vladimirovich Cherkasov, um suposto espião russo que viveu no Brasil por mais de 15 anos e estava preso em Brasília desde 2022. A decisão foi assinada pela coordenadora de processos migratórios, Alessandra Teixeira de Araújo, e publicada no Diário Oficial da União na última segunda-feira, 6 de julho. O caso expõe as brechas na segurança nacional e levanta questões sobre a soberania do país diante de redes internacionais de espionagem.
Sergey é acusado de integrar uma rede de espiões russos que usava o Brasil como trampolim para se infiltrar em outros países e obter informações estratégicas para a Rússia. Ele viveu em território brasileiro desde 2010 e assumiu a identidade de Victor Muller Ferreira, um brasileiro fictício, com o objetivo de conseguir a cidadania portuguesa e se tornar cidadão europeu.
Como o espião russo foi descoberto?
A captura de Sergey ocorreu há cerca de quatro anos, quando ele tentou entrar na Holanda com um passaporte brasileiro e outros documentos falsos em março de 2022. Ele havia sido aprovado para um estágio no Tribunal Penal Internacional, em Haia, mas a fraude foi descoberta por autoridades holandesas e americanas. Deportado para o Brasil, foi preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos e, dois meses depois, passou a cumprir pena de 15 anos. Ele responde a processos por espionagem, lavagem de dinheiro, corrupção passiva e uso de documento falso.
O que aconteceu com o pedido de extradição para a Rússia?
Sergey solicitou à Justiça brasileira que fosse extraditado para a Rússia. O governo russo alegava que ele fazia parte de uma rede internacional de tráfico de drogas e pedia seu retorno para julgamento no país de origem. O Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou a extradição, mas condicionou à conclusão de um inquérito da Polícia Federal em São Paulo. Em dezembro de 2024, contudo, o ministro Edson Fachin negou a extradição, justificando que Sergey ainda tinha 'pendências penais' no Brasil.
Como o espião construiu a identidade falsa?
Conforme mostrou o Estadão em 2023, Sergey construiu de forma minuciosa o personagem Victor Muller Ferreira. Um documento de quatro páginas, localizado nas investigações da Polícia Federal, mostrava o roteiro que o russo deveria seguir para tornar crível a história fictícia. Entre as mentiras, estavam a perda da mãe durante o parto e uma suposta descendência alemã, que justificariam o sotaque, embora dissesse ser natural de Niterói, no Rio de Janeiro. Alegava ter sido cuidado por uma amiga da mãe e que a vida o levou a morar em várias cidades, incluindo Brasília.
O registro de sua entrada no Brasil é de 2010. Na história criada, ele teria ido para a Europa por alguns anos e voltado ao Brasil naquele ano para resolver uma situação com o pai, que morava na capital federal. Enquanto esteve no Brasil, Sergey conseguiu usar as identidades falsas para estudar na Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, de onde tentou conseguir estágios em agências governamentais e organismos internacionais.
O esconderijo em Cotia e a conexão com o FBI
Os investigadores descobriram que o russo tinha um esconderijo para deixar equipamentos e mensagens em Cotia, na Grande São Paulo. O objetivo era que o local pudesse ser um ponto de apoio do esquema de espionagem, para que informações e dados pudessem ser recuperados por outros integrantes da organização. O local foi descoberto a partir de dados encontrados no celular que ele usava no momento da prisão, em Guarulhos. A Polícia Federal encontrou dispositivos no esconderijo e os repassou ao FBI, o Departamento Federal de Investigação dos Estados Unidos.
Com colaboração de Vinicius Valfré