O império da IA: como as big techs sugam o Sul Global e o que fazer contra isso
Por trás da inteligência artificial generativa que encanta o mundo, existe uma engrenagem voraz. A jornalista investigativa Karen Hao, premiada e eleita pela Time como uma das pessoas mais influentes do setor, expõe essa realidade em seu livro O império da IA, lançado no Brasil pela Editora Rocco. Em entrevista exclusiva, ela revela como a corrida tecnológica das gigantes como OpenAI e seu líder Sam Altman custa caro ao meio ambiente, explora trabalhadores precarizados e concentra poder nas mãos de multinacionais. Mas, calma: há alternativas. Vamos entender.
O que a IA esconde por trás da inovação?
Karen Hao não tem papas na língua. Para ela, o desenvolvimento atual da inteligência artificial é “profundamente imperialista”. As empresas na vanguarda operam como novos impérios, baseando sua tecnologia em uma escala massiva de dados, poder computacional e dinheiro. “Essa busca desenfreada por escala exige extração, e os recursos são tirados de indivíduos, criadores, da força de trabalho e de comunidades, afetando especialmente o Sul Global”, explica.
E não adianta dizer que a IA é uma ferramenta neutra. Hao rebate: “Dizer que a IA é apenas uma ‘ferramenta’ neutra é uma visão extremamente limitada. Ela já impacta a sociedade duramente em seu próprio processo de produção. Existe toda uma economia política, uma reconfiguração da Terra e até a perturbação de sistemas educacionais para viabilizar as demandas dessas empresas.”
Modelos gigantescos: custo-benefício péssimo
A jornalista compara os modelos de IA generativa a veículos poluentes. “É como discutir se todo meio de transporte é bom ou ruim. Obviamente, há transportes com um impacto mais positivo. Os modelos gigantescos de IA generativa representam uma relação custo-benefício péssima, enquanto há alternativas e abordagens melhores que cumprem funções semelhantes.”
Existe alternativa para uma IA sem exploração?
Sim, e Hao é categórica. “Os problemas são consequências diretas da abordagem focada em ‘escala’. Para crescer o banco de dados depressa, as empresas diminuem a qualidade da curadoria e raspam os cantos mais obscuros da internet. Precisam de trabalhadores precarizados para atuar como escudos humanos revisando conteúdo tóxico, o que devasta a saúde mental dessas pessoas.”
A solução? “Ferramentas de código aberto, como o modelo chinês DeepSeek, mostraram que é possível alcançar as mesmas capacidades com uma quantidade significativamente menor de recursos. A diferença é que isso exige pesquisa real e inovações técnicas, o que leva mais tempo do que simplesmente jogar dinheiro na estrutura. Podemos desenvolver a IA livre de exploração, assim como desenvolvemos painéis solares para nos libertar dos combustíveis fósseis.”
O que a sociedade pode fazer contra o império da IA?
Hao propõe duas frentes de ação. “Precisamos aplicar pressão contra essas empresas e investir em modelos alternativos de desenvolvimento.” Ela cita exemplos de resistência: “Enormes protestos paralisaram a construção de mais de 150 bilhões de dólares em projetos de data centers em 2025. Vemos processos judiciais, organização da força de trabalho, sindicatos dentro das big techs e pessoas pressionando políticos locais.”
Na segunda frente, ela defende que “governos, empreendedores e investidores redirecionem capital e talentos para o desenvolvimento da inovação pautada no interesse público. Foi assim que indústrias como as de moda e de café conseguiram focar em cadeias de suprimentos mais sustentáveis e éticas.”
Como se conscientizar sobre os impactos da IA?
Para a jornalista, a educação é a chave. “As pessoas precisam se educar sobre o funcionamento dessa tecnologia, bem como sobre suas origens de produção e formas de implementação. Jornalistas, educadores, pesquisadores acadêmicos e os próprios trabalhadores do setor devem se engajar na educação pública.”
Ela lembra que, quando começou a cobrir IA em 2018, ninguém se importava. Hoje, o tema domina as conversas. “Isso é incrível, pois demonstra que as pessoas desejam entender a força que está moldando suas vidas para poderem moldá-la ativamente.”
Por que o foco em Sam Altman e na OpenAI?
Hao explica que a concepção atual de IA se baseia totalmente no ChatGPT, criado pela OpenAI. “Sam Altman não é um cientista ou pesquisador de IA, mas sim um homem de negócios com um talento ímpar para arrecadar montantes extraordinários de dinheiro. Ele foi o responsável pela escolha de um caminho de desenvolvimento tecnológico totalmente pautado pelo capital.”
Como usar a IA no dia a dia sem ser explorado?
“Não precisamos descartá-los por completo”, afirma Hao. “Os modelos de código aberto são um grande salto adiante em relação aos sistemas fechados das grandes empresas. Como os desenvolvedores open-source operam com menos dinheiro, as cadeias de suprimento acabam sendo mais eficientes, o que é menos extrativista e impede que nossos dados retroalimentem grandes corporações monopolistas.”
Ela mesma usa IA para transcrições de áudio, mas não para gerar textos jornalísticos. “O segredo é ter estratégia: cada um deve se questionar criticamente sobre o que está tentando resolver. Se um grande modelo de linguagem não for a melhor solução para o seu problema específico, escolha um sistema focado diferente, ou não use IA.”
O futuro: regulação e resistência
Hao está otimista. “O que vem a seguir depende das nossas decisões coletivas. Neste último ano, acompanhamos o público exigindo um lugar à mesa e decidindo ativamente como quer que a tecnologia se comporte na sociedade. Acredito que essa base de organização social e resistência finalmente levará a um cenário de forte legislação e regulação governamental.”
Ela cita os Estados Unidos, onde “legisladores que não defendem o interesse da população contra os abusos da IA já começaram a ser varridos de seus cargos por eleitores”. E conclui: “Não tenho dúvidas de que essa cobrança pela responsabilidade das big techs chegará a muitos países, inclusive ao Brasil.”
Perguntas frequentes sobre o império da IA
A IA generativa é sempre prejudicial?
Não. Modelos de código aberto e abordagens focadas em eficiência podem reduzir danos. O problema é a escala extrativista das big techs.
Como posso me proteger da exploração trabalhista na IA?
Prefira ferramentas de código aberto e exija transparência das empresas. Apoie sindicatos e movimentos que pressionam por regulamentação.
O que o Brasil pode fazer contra o império da IA?
O Brasil pode liderar a regulação, investir em pesquisa pública e apoiar modelos alternativos de desenvolvimento, como fez com energias renováveis.