Três produções de Hollywood sobre pessoas lutando para sobreviver sozinhas estão em cartaz nos cinemas de Porto Alegre este mês de outubro de 2026. Dentro da Baleia estreou na quinta-feira (15), Coração Selvagem chegou aos cinemas em 24 de setembro e Resident Evil já completou um mês em exibição, segundo reportagem do GZH publicada neste domingo (19).
Não é por acaso. Para pesquisadores ouvidos pela reportagem, a onda de filmes de sobrevivência reflete um tempo em que guerras, emergência climática, polarização política e a descrença generalizada nas instituições empurram cada pessoa para o seu próprio canto. E essa história, do cada um por si, deveria soar familiar para quem acompanha a ofensiva neoliberal contra o coletivo.
Quais são os três filmes de sobrevivência em cartaz
Em Dentro da Baleia, adaptação dirigida por Brian Duffield de romance inédito no Brasil de Daniel Krauss, o jovem interpretado por Austin Abrams mergulha no mar da Praia do Monastério, na Califórnia, atrás da ossada do pai. Ele acaba engolido por um cachalote de 25 metros e 60 toneladas, com apenas uma hora de oxigênio no tanque para escapar antes de morrer sufocado ou digerido.
Em Coração Selvagem, de David Ayer, Brad Pitt vive um veterano da guerra do Afeganistão que se mudou para o Alasca com seu cão de combate, um pastor-alemão, em busca de uma vida simples. Durante uma tempestade, ele sofre um mal súbito pilotando um monomotor que despenca num lago congelado. A partir daí, homem e cachorro enfrentam toda sorte de adversidades para voltar à civilização.
Já Resident Evil, dirigido por Zach Cregger, reinicia a franquia de terror baseada no videogame. Austin Abrams faz um entregador de medicamentos comum que, durante uma nevada em Raccoon City, precisa levar uma encomenda ao Hospital Geral e acaba preso numa noite de surto biológico. Sem preparo para enfrentar as criaturas grotescas que tomam a cidade, ele luta para sobreviver e descobrir a origem do caos. Quase foram quatro filmes: A Queda 2: No Limite saiu de cartaz em 7 de outubro.
O que os especialistas dizem sobre o fenômeno
A psicóloga e psicoterapeuta psicanalítica Tatiana Hemesath disse ao GZH que esses filmes nos mobilizam porque colocam diante de nós uma das experiências mais primitivas da condição humana: o medo de deixar de existir.
Para ela, há algo mais profundo nessas narrativas. Elas não falam apenas do esforço de preservar a vida, mas da necessidade de preservar o que nos torna humanos.
quot;Eros, a pulsão de vida, representa justamente essa força que nos impulsiona a conservar, criar, amar e estabelecer ligaçõesquot;, explicou Hemesath. quot;Como continuar desejando viver quando tudo aquilo que dava sentido à existência parece ter desaparecido?quot;
O pesquisador de cinema Danilo Fantinel, doutor em Comunicação e organizador do livro 100 Filmes Brasileiros Essenciais da Abraccine, lembrou que sobreviver não é apenas instinto biológico, mas uma constante antropológica. E apontou o contexto: quot;Se pensarmos em nosso presente incerto, marcado por guerras em dezenas de países, emergência climática, futuras pandemias, polarização política, novo imperialismo e ameaça digital representada nos perigos da inteligência artificial, me parece compreensível o apelo de filmes desse tipo no cinema comercial de hoje.quot;
Herói solitário e a crise das instituições
Rodrigo Lopes, colunista de Zero Hora e doutor em Estudos Estratégicos Internacionais pela UFRGS, observou que Hollywood sempre refletiu uma marca da política dos Estados Unidos: a identificação de inimigos externos, sejam nazistas, comunistas, o fundamentalismo islâmico ou a China. Nos filmes, os heróis combatem monstros, alienígenas, máquinas implacáveis ou feras selvagens.
O problema, analisou Lopes, é que hoje há descrença no coletivo e nas instituições. Estão sem credibilidade o governo, o Congresso, os sindicatos, o Judiciário, a imprensa e entidades internacionais como a ONU, a OMS e o FMI.
quot;Cada nação, ou seja, cada 'personagem' na geopolítica mundial, luta sozinho e só por si. Existe um certo individualismo no ar, uma sensação de que, diante dos problemas políticos que se tem, a forma de atuar é no cada um por siquot;, disse Lopes.
Aqui está o nó da questão para quem vive da ação coletiva, do sindicato, do movimento social. A psicóloga e psicanalista Luciana Wickert, mestre em Psicologia Social e Institucional pela UFRGS, foi direta ao ponto.
quot;São narrativas que reforçam o discurso do individualismo e de que existe saída fora da ação coletiva. Este herói não presta contas a ninguém, está autorizado a fazer o que for para sobreviver. A sua necessidade individual justifica qualquer ato. Este tipo de narrativa não leva em conta o outro. Aliás, o outro pode nem existirquot;, afirmou.
Para Wickert, a ausência de interação humana nesses filmes pode refletir um desejo de reduzir os conflitos da vida em sociedade. quot;É acalentador, apesar de totalmente enganoso, pensar que podemos prescindir do encontro com o outroquot;, disse. quot;A ideia de que ser forte, ser inteligente poderia garantir a vida é uma negação da dependência emocional que todos temos. Somos dependentes da interação humana.quot;
O que as histórias de sobrevivência revelam sobre nós
Há, porém, uma contracorrente dentro do próprio subgênero. Hemesath lembrou que mesmo em condições extremas o ser humano continua procurando o outro, citando o investimento afetivo do personagem de Tom Hanks numa bola de vôlei, Wilson, em Náufrago (2000).
quot;Não basta ao ser humano estar biologicamente vivo. Precisamos de afeto, de encontro, de companhiaquot;, disse a psicóloga. quot;Quando o outro desaparece, procuramos formas de preservar sua presença, ainda que simbolicamente.quot;
Para ela, Hollywood encontrou nesses filmes uma forma de traduzir angústias contemporâneas em histórias concretas, com personagens em quem nos reconhecemos. Na segurança da sala de cinema, experimentamos simbolicamente o encontro com aquilo que mais tememos.
quot;O maior desafio humano não é simplesmente escapar da morte. É conseguir, apesar das perdas, continuar encontrando razões para viverquot;, resumiu Hemesath. quot;Porque sobreviver é uma necessidade biológica. Mas continuar amando, desejando e buscando o outro é o que dá sentido à sobrevivência.quot;
Enquanto isso, no mundo real, a cooperação entre países segue falhando, como mostra a dificuldade dos acordos de redução de emissões de gases poluentes, tema que também atravessa a
