Por que as memórias de traumas vêm em pedaços? A ciência explica
Quando alguém sobrevive a um trauma e tenta contar o que viveu, muitas vezes é recebido com desconfiança. A história parece confusa, os detalhes não batem, o relato não segue uma linha reta. Advogados, repórteres, profissionais de saúde e até amigos esperam uma narrativa clara, com começo, meio e fim. Mas o cérebro de quem passou por um evento traumático simplesmente não funciona assim.
Michele Patterson Ford, professora de psicologia no Dickinson College, explica no site The Conversation que a ciência por trás da memória traumática revela por que essas reações são esperadas, e não contraditórias. E entender isso é uma questão de justiça social: quantas vítimas não são desacreditadas simplesmente porque a sua forma de lembrar não se encaixa no que o senso comum espera?
Como o trauma afeta o cérebro?
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 70% das pessoas no mundo relatam ter passado por um evento traumático ao longo da vida. A maioria não desenvolve Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), mas muitos carregam angústia, depressão ou ansiedade como marcas silenciosas.
Durante um trauma, duas estruturas cerebrais são centrais: a amígdala, que processa as emoções, e o hipocampo, que armazena memórias. A amígdala dispara em estado de alerta máximo, enquanto o hipocampo fica sobrecarregado pelo estresse. O resultado? A memória não é guardada como um filme organizado, mas como fragmentos soltos: sensações, cheiros, imagens, medo.
É por isso que quem viveu um trauma pode sentir que está revivendo a experiência no presente, sem a distância que normalmente temos do passado. O corpo reage como se a ameaça ainda estivesse ali.
Por que as reações de sobreviventes parecem estranhas?
Todo mundo já ouviu falar de “luta ou fuga”. Mas o trauma também pode gerar a resposta de paralisia, quando a mente fica em branco e a pessoa não consegue falar. E há ainda a chamada “resposta do filhote de veado”: a pessoa age com calma, apazigua o agressor e se afasta para diminuir o conflito.
Pense numa pessoa que sofre um trauma durante uma consulta médica. Ela pode sair da sala normalmente, se despedir, pagar e até agendar a próxima sessão. Para quem está de fora, isso parece estranho. Mas é uma estratégia de sobrevivência. Em vez de fugir literalmente, ela recua metaforicamente, fazendo o que é esperado para não piorar a situação.
O problema é que essas respostas são frequentemente mal interpretadas. Muitos veem a frieza ou a aparente normalidade como prova de que o trauma não aconteceu. Mas a ciência mostra que isso é um equívoco perigoso, que descredibiliza vítimas e alimenta a cultura da culpabilização.
Por que os relatos de trauma são fragmentados?
Quando uma sobrevivente finalmente decide falar ou testemunhar contra o agressor, o estresse da situação pode afetar ainda mais a recuperação da memória. A sensação de que o evento está acontecendo de novo, ali, naquele momento, torna o relato mais fragmentado. A pessoa pode ter uma reação emocional intensa ou, ao contrário, parecer distante e fria.
Profissionais do direito e outros que não conhecem essas respostas naturais podem facilmente confundir esses comportamentos com mentira ou simulação. Mas os dados mostram outra realidade: a porcentagem de denúncias falsas de agressão sexual, por exemplo, é baixa, entre 2% e 10%. A desconfiança sistemática em relação às vítimas não se sustenta nos fatos.
Como oferecer um apoio melhor?
Pesquisas mostram que quem entende as nuances do trauma é mais empático com os sobreviventes. Ambientes de saúde que adotam uma abordagem informada sobre o trauma conseguem prevenir a retraumatização e promover segurança. Até a escolha das palavras importa: evitar frases que culpabilizam a vítima é um passo essencial.
O sistema jurídico também precisa mudar. Entender que relatos não lineares não são mentiras é fundamental para que vítimas recebam apoio, e não desconfiança.
E isso vale para os relacionamentos do dia a dia. Na amizade, no trabalho, no amor, a paciência e a empatia criam um ambiente de respeito e segurança. Para um sobrevivente, esse acolhimento pode ser a diferença entre o sofrimento solitário e um caminho de recuperação.
Quando a gente entende como o trauma afeta o cérebro, percebemos que o que parece confuso é, na verdade, uma resposta lógica de um corpo que lutou para sobreviver. E aí, sim, podemos ser melhores amigos, colegas e profissionais. E, quem sabe, ajudar quem sofreu a se reencontrar consigo mesmo.
“O que a princípio parece confuso ou inconsistente é, na verdade, um comportamento que decorre logicamente de um cérebro traumatizado.”
Michele Patterson Ford, professora de psicologia no Dickinson College