A Soulier, rede carioca de calçados, bolsas e acessórios femininos com 44 anos de história, quer saltar das 36 operações atuais para mais de 100 unidades nos próximos dois anos. O plano, revelado nesta quarta-feira (15) ao site Exame, passa por um modelo pensado para caber no bolso de quem sempre sonhou com o próprio negócio, mas nunca teve capital para uma loja convencional: quiosques com investimento inicial a partir de R$ 170 mil.
Depois de faturar R$ 40 milhões em 2025, a empresa projeta R$ 65 milhões em 2026, um avanço de 62,5%, e a meta de R$ 100 milhões em 2027. Para uma marca que nasceu como fábrica familiar no Rio de Janeiro e que fabrica tudo no Brasil, o momento é de expansão para além do estado de origem, com prioridade para capitais do Sudeste, do Nordeste e do Centro-Oeste.
Quiosque de R$ 170 mil abre porta para pequenos empreendedores
O coração da estratégia é reduzir a barreira de entrada. Enquanto uma loja convencional exige investimento inicial de aproximadamente R$ 300 mil, o quiosque começa em R$ 170 mil, menos da metade. E a diferença de tamanho não significa venda proporcionalmente menor: segundo o CEO Rodrigo Favero, os quiosques da rede faturam entre R$ 65 mil e R$ 120 mil por mês.
“Vimos que havia uma necessidade do investidor que queria gastar menos ou experimentar primeiro o mercado de franquias e de moda”, disse Favero, que integra a segunda geração da família à frente da empresa. “O quiosque é um primeiro passo para ter uma franquia da Soulier.”
Favero compara o projeto arquitetônico a uma pequena casa. “Conseguimos fazer um projeto arquitetônico como se fosse uma loja, mas com um investimento que cabe mais no bolso do franqueado. Ficou como uma casa de boneca, uma loja confortável e que vende bem”, afirmou.
Num país onde abrir o próprio negócio costuma ser um privilégio de quem tem capital, o modelo interessa. A empresa estima lucratividade média de 15% por operação, tíquete médio de R$ 340 e preço médio de produto de R$ 199.
Da fábrica da mãe ao varejo: uma história de família brasileira
A Soulier foi fundada por Heloísa, mãe de Favero, que aos 76 anos segue trabalhando todos os dias no negócio. Favero, hoje com 49, entrou na empresa em 1995 como estagiário, estudando Administração na PUC-Rio à noite e trabalhando de dia na fábrica de cintos e bolsas dos pais.
Antes de assumir o varejo, passou um ano em Londres trabalhando em restaurantes e bares, e depois quase dois anos no mercado financeiro, como gerente de crédito. Foi ali que conheceu por dentro o varejo carioca.
“Eu atendia basicamente todas as redes grandes de varejo no Rio. Pude entender o que dava certo e o que não dava certo”, contou.
Em 2003, abriu a primeira loja da marca na Rua Vinicius de Moraes, em Ipanema. O e-commerce veio no início da década passada e o programa de franquias em 2017, com a primeira unidade franqueada inaugurada no ano seguinte. Hoje são 16 operações próprias e 20 franquias, contando unidades em processo de abertura.
Produção 100% brasileira e sem importação chinesa
Para quem defende a soberania nacional e a indústria que gera emprego aqui dentro, o modelo produtivo da Soulier chama atenção. Cerca de 95% da produção utiliza couro, todos os produtos são desenvolvidos no Brasil e a empresa afirma não importar mercadorias prontas da China.
A maior parte dos calçados sai do Vale dos Sinos, no Rio Grande do Sul, um dos principais polos calçadistas do país. Parte das bolsas e acessórios é feita no Rio de Janeiro. Os modelos são criados por uma equipe de cinco estilistas internos, e a produção fica com fábricas homologadas, muitas delas exclusivas da marca.
Favero diz que não faz sentido voltar a fabricar internamente. “Estamos muito focados no desenvolvimento de produto, de marca e no varejo”, afirmou. A empresa mantém um profissional dedicado ao controle de qualidade no Rio Grande do Sul, acompanhando da matéria-prima até a expedição.
Rede promove não deixar franqueado sozinho
A Soulier estruturou um sistema de acompanhamento que começa antes da inauguração: três treinamentos online, uma semana de imersão na operação da companhia e presença da equipe da marca na abertura da unidade. Nos primeiros 12 meses, a matriz ajuda a definir o mix de compras, sem impor cota mínima obrigatória de mercadorias.
“Durante um ano inteiro, a gente pega na mão do franqueado e faz a compra junto com ele, até que tenha histórico e entenda o negócio a fundo”, disse Favero.
A escolha do ponto comercial também é feita junto com a empresa, e o próprio CEO visita os locais candidatos. “Só entra para ser nosso franqueado depois de uma escolha de ponto feita junto com a gente”, afirmou. A empresa diz estar há três anos sem fechar uma unidade.
As campanhas comerciais são adaptadas a cada região. No Nordeste, por exemplo, o São João ganha em Campina Grande e Recife o mesmo peso das grandes datas nacionais do varejo.
Tecnologia integra estoques e sustenta meta de crescimento
Para crescer sem criar ilhas, a rede integrou os estoques. Se um produto falta em uma loja, o vendedor acessa o estoque de outro ponto da rede. Compras online podem ser retiradas em loja física e trocas podem ser feitas em qualquer unidade.
“O cliente nem sabe se aquela loja é franquia ou não. Ele é cliente da Soulier”, disse Favero. A empresa também migrou para um novo sistema de gestão e passou a usar inteligência artificial em algumas áreas da operação.
Fora do eixo Rio de Janeiro e Niterói, onde concentra 26 operações, a marca já chegou a Brasília, Recife, Campina Grande, Belém, Macaé e São Luís, com Salvador entre as próximas aberturas. A meta para 2027 é abrir entre 30 e 40 novos pontos, entre lojas e quiosques.
Perguntas frequentes
Quanto custa abrir uma franquia da Soulier?
O quiosque exige investimento inicial a partir de R$ 170 mil, enquanto a loja convencional parte de aproximadamente R$ 300 mil, segundo dados divulgados ao site Exame.
Quanto fatura uma unidade da Soulier?
Os quiosques faturam entre R$ 65 mil e R$ 120 mil por mês, segundo o CEO Rodrigo Favero. A lucratividade média estimada é de 15% por operação.
Onde os produtos da Soulier são fabricados?
A maior parte dos calçados é produzida no Vale dos Sinos, no Rio Grande do Sul, e parte das bolsas e acessórios no Rio de Janeiro. A empresa afirma que 95% da produção usa couro e que não importa mercadorias prontas da China.
