A competição entre grandes potências, as guerras em curso e a busca por cadeias de suprimento menos vulneráveis transformaram o risco geopolítico em um fator permanente nas decisões de investimento, produção e escolha de fornecedores. A avaliação é do professor de Relações Internacionais Oliver Stuenkel, feita na abertura do Fórum Encadear, promovido pelo Sebrae na quarta-feira (14), em São Paulo, segundo reportagem do Brasil 247.
Para quem produz, vende ou depende de insumos importados no Brasil, a mensagem é direta: a era de estabilidade acabou. Planejar exige agora lidar com a instabilidade como parte do cotidiano, e não como exceção.
O que mudou na economia mundial
Stuenkel afirmou que a estabilidade que marcou parte das últimas décadas deu lugar a um cenário de competição acirrada entre países. A ascensão da China e a disputa com os Estados Unidos aproximaram decisões econômicas de preocupações ligadas à segurança nacional.
Na prática, isso significa que o custo deixou de ser o único critério. A eficiência segue relevante, mas passou a dividir espaço com segurança, confiabilidade e capacidade de resposta a rupturas. Empresas que dependem de um único fornecedor ou de um único mercado ficam expostas a choques que podem parar a produção de um dia para o outro.
O professor avaliou que o comércio internacional não está em recuo generalizado, mas passa por uma reorganização. Guerras, escassez de insumos e sanções redesenham rotas, contratos e parcerias.
Por que o Brasil pode se beneficiar
Nesse novo tabuleiro, Stuenkel vê espaço para o Brasil. O país mantém relações com diferentes polos internacionais e não participa diretamente dos principais conflitos, o que pode atrair investimentos em busca de segurança.
A posição, porém, não elimina a exposição a choques externos. O professor citou um exemplo que interessa de perto ao campo: a importação de fertilizantes pelo agronegócio brasileiro depende de fornecedores concentrados em regiões sensíveis à tensão geopolítica. Uma ruptura nessa cadeia atinge o produtor, o preço da comida e, no fim da conta, a mesa da trabalhadora e do trabalhador brasileiro.
É aqui que a soberania nacional, defendida por setores progressistas como base de qualquer projeto de desenvolvimento, aparece como questão concreta. Reduzir dependência de insumos externos não é slogan: é estratégia de sobrevivência econômica.
Exigências chegam aos pequenos fornecedores
Carlos Eduardo Santiago, gerente nacional de Acesso a Mercados do Sebrae, afirmou que as mudanças nas cadeias globais criam desafios e oportunidades. Deslocamentos de plantas produtivos provocados por guerras ou escassez exigem monitoramento e ação para que empresas brasileiras possam atender novas demandas.
Santiago destacou que pequenas e médias empresas precisam se preparar para atender certificações e outros requisitos exigidos pelo mercado corporativo. Sem preparo, o pequeno negócio fica fora das cadeias de valor; com apoio técnico e acesso a crédito, ele encontra espaço para crescer.
O que as grandes empresas estão pedindo
Executivos de Embraer, Danone, L'Oréal e Globo relataram, no primeiro painel do evento, que qualidade, preço e capacidade de entrega continuam centrais, mas passaram a conviver com exigências de inovação, sustentabilidade, diversidade, certificações e adaptação tecnológica.
A Embraer informou que reúne cerca de 1.400 fornecedores diretamente ligados a seus produtos e mais de 5.000 em toda a companhia. Leonardo Garnica, líder de inovação corporativa, destacou a necessidade de qualificar fornecedores, ampliar a digitalização e facilitar o acesso a financiamento para que a cadeia acompanhe o ritmo de produção.
Na Danone, a head de Sustentabilidade, Taisa Costa, apresentou números que mostram que produção sustentável e resultado econômico caminham juntos. Iniciativas com pequenos produtores de leite resultaram em redução de 50% nas emissões de CO₂ e de 43% nas emissões de metano. Segundo ela, 60% do leite comprado pela companhia já está associado a impactos sociais, ambientais e econômicos positivos.
O dado merece atenção num país onde o agronegócio costuma ser apresentado como inimigo da agenda ambiental. A experiência da Danone sugere outro caminho: incluir o pequeno produtor na transição e transformá-lo em protagonista, não em vítima.
A L'Oréal informou que trabalha com fornecimento sustentável, diversidade de fornecedores e metas relacionadas a clima, natureza e economia circular. Helen Pedroso, diretora de Responsabilidade Corporativa e Direitos Humanos da empresa no Brasil, afirmou que resultados financeiros e impactos da cadeia devem ser tratados de forma integrada.
Na Globo, o diretor do Centro de Serviços Compartilhados, Mauricio Gonzalez, relatou o desafio de aplicar essas exigências a uma rede de cerca de 40 mil fornecedores, com diferentes níveis de maturidade. Em uma iniciativa com o Sebrae, segundo ele, 30 pequenas empresas participaram de uma imersão em ESG e alcançaram certificação.
O CEO da Mogai, Franco Machado, contou uma trajetória que resume o potencial do empreendedorismo brasileiro quando encontra oportunidade. A empresa começou como fornecedora da Vale e hoje atende mais de 40 grandes companhias. Tecnologias inicialmente desenvolvidas para a mineração foram adaptadas para outros setores, incluindo aplicações na Embraer e na Cargill.
Quem financia a preparação dos pequenos?
Se as exigências crescem, o suporte precisa acompanhar. O depoimento de Garnica, da Embraer, apontou o gargalo: acesso a financiamento. Pequenos negócios raramente têm capital para investir em digitalização, certificação e adaptação tecnológica por conta própria.
É o tipo de desafio que exige presença ativa do Estado: crédito público barato, programas de qualificação e políticas de fomento que não deixem a pequena empresa à mercê exclusivamente da boa vontade das grandes corporações. O mercado corporativo pode abrir portas, mas a democratização do acesso às cadeias de valor depende de política pública.
FAQ
O que é o Fórum Encadear?
É um evento promovido pelo Sebrae que reúne grandes empresas e pequenos negócios para debater transformações nas cadeias de valor. A edição atual começou na quarta-feira (14) e continua nesta quinta-feira (15), com painéis sobre inovação, bioeconomia, novas tecnologias e mercados.
Por que o risco geopolítico afeta empresas brasileiras?
Porque guerras, sanções e disputas entre potências alteram o fornecimento de insumos e reorganizam cadeias globais. No Brasil, um exemplo citado por Stuenkel é a importação de fertilizantes pelo agronegócio, vulnerável a choques externos.
Como pequenas empresas podem acessar grandes cadeias de valor?
Segundo especialistas ouvidos no fórum, é preciso atender certificações e requisitos de sustentabilidade, inovação e diversidade. O Sebrae oferece programas de qualificação e parcerias com grandes companhias para preparar fornecedores.
