O risco-país da Argentina saltou 5,64% nesta quinta-feira (5), chegando a 1.042,88 pontos, o maior nível desde dezembro de 2024, depois que o Partido Democrata venceu as eleições legislativas americanas e ameaçou o apoio financeiro de Donald Trump ao governo de extrema direita de Javier Milei.
Segundo o Brasil 247, os mercados reagiram com medo de que a nova composição do Congresso dos Estados Unidos reduza a assistência financeira de Washington a Buenos Aires, sustentáculo da frágil estabilidade econômica argentina.
Por que o risco-país da Argentina subiu tanto
O risco-país mede a remuneração extra que investidores exigem para financiar um governo, em comparação com os títulos do Tesouro americano. Quando sobe, fica mais caro rolar a dívida pública. Para um país submetido a um programa de austeridade brutal como a Argentina de Milei, esse encarecimento pesa direto na conta do povo.
Os títulos argentinos também sofreram. Um papel da dívida com vencimento em setembro de 2029 caiu 2,29%, negociado a US$ 48,289, e o rendimento subiu de 8,4% para 9,3%, sinal de que os investidores passaram a cobrar mais para manter dinheiro no país.
A eleição americana e o susto dos mercados
Nas eleições de terça-feira (3), os democratas conquistaram a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado. Com a apuração em andamento, a oposição já havia garantido 251 das 435 cadeiras da Câmara, contra 155 dos republicanos. No Senado, os democratas asseguraram ao menos 54 dos 100 assentos.
A mudança chega depois de Trump ter desempenhado papel central na sustentação financeira de Milei durante as eleições legislativas argentinas de outubro de 2025. Na ocasião, o presidente argentino enfrentava pressões sobre o peso e um escândalo envolvendo um aliado político. Duas semanas antes da votação, Milei viajou a Washington para buscar respaldo da Casa Branca.
Trump condicionou explicitamente a parceria ao desempenho eleitoral do aliado argentino.
Se Milei não ganhar, não seremos generosos com a Argentina, declarou o presidente americano a jornalistas.
Às vésperas da eleição, Washington ofereceu um pacote de socorro de US$ 20 bilhões para conter uma possível crise cambial. O gesto mostrou o quanto a estabilidade financeira argentina dependia do chefe da Casa Branca. A Folha também reportou que a alta do risco-país reflete o temor de que Milei receba menos apoio dos Estados Unidos após as eleições de meio de mandato.
Queda das bolsas americanas agrava a pressão
Somam-se às incertezas políticas os efeitos de uma onda internacional de aversão ao risco, com fortes perdas nas principais bolsas americanas. O S&P 500 recuava 4,16%, aos 7.368 pontos. O Dow Jones caía 3,44%, aos 51.521 pontos. O Nasdaq tinha o pior desempenho, com desvalorização de 5,52%, aos 24.315 pontos.
A queda das ações americanas reduz o apetite dos investidores por ativos de economias emergentes, justamente os que mais dependem de capital externo.
Segundo a Tribuna do Sertão, analistas apontam que a derrota dos republicanos reduz a margem de apoio financeiro dos Estados Unidos a Milei, o que explica parte do prêmio exigido pelos investidores.
Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, avaliou que o ambiente externo explica parte da pressão, mas a relação com Washington pesa ainda mais.
Ativos de risco e mercados emergentes podem ser contaminados por esse movimento, com aumento do prêmio de risco sendo um dos efeitos de um ambiente mais cauteloso. Isso pode explicar parte da alta do prêmio exigido pelos investidores para comprar a dívida argentina. A possibilidade de menor apoio de Washington ao governo Milei pode estar pesando mais, afirmou a especialista.
O que isso significa para o projeto de Milei
O modelo argentino tem sido celebrado por setores conservadores como prova de que cortes brutais em direitos, salários e serviços públicos gerariam prosperidade. A realidade é outra: o país segue dependente de favores políticos externos para não afundar no câmbio.
O vice-secretário de Estado americano, Christopher Landau, chegou a classificar a Argentina como o país mais alinhado aos Estados Unidos hoje, selo que expõe a subordinação do projeto ultraliberal aos humores da política americana.
Apesar das dificuldades da campanha, o partido A Liberdade Avança, liderado por Milei, saiu fortalecido das eleições legislativas de outubro de 2025. Agora, sem a generosidade de Trump garantida, o governo enfrenta a conta de um ajuste que recaiu sobre trabalhadores, mulheres e a maioria pobre do país.
Para o Brasil, o episódio é um lembrete de que soberania econômica se constrói com políticas públicas, mercado interno forte e independência nas decisões, não com a entrega da economia a tesouras estrangeiras.
Perguntas frequentes
O que é o risco-país?
É o prêmio extra que investidores cobram para financiar um país, comparado aos títulos do Tesouro americano. Quanto mais alto, mais caro fica o financiamento da dívida pública.
Quanto subiu o risco-país da Argentina?
Subiu 5,64% nesta quinta-feira (5), atingindo 1.042,88 pontos, o maior nível desde dezembro de 2024.
Por que a vitória democrata afeta Milei?
Porque o apoio financeiro e político de Trump sustentou o governo argentino, incluindo um pacote de US$ 20 bilhões oferecido em 2025, e a nova maioria democrata no Congresso pode dificultar essa ajuda.
