Sonova quer dobrar no Brasil: surdez ainda é tabu e acesso é privilégio
Enquanto a população brasileira envelhece em ritmo acelerado, a gigante suíça Sonova, líder mundial em aparelhos auditivos, anunciou que pretende dobrar seu tamanho no país nos próximos cinco anos. A notícia, que à primeira vista parece só mais um movimento de mercado, escancara uma realidade incômoda: a perda auditiva atinge de 15% a 20% da população, mas pouquíssimos têm acesso ao tratamento.
O Brasil já responde por 71% das operações da empresa na América Latina. São 312 pontos de venda, um salto e tanto se comparado aos 60 de sete anos atrás. Mas, para Oliver Lux, presidente da Sonova para Europa, América Latina, África e Oriente Médio, ainda há “gordura para queimar”. E é exatamente aí que mora o problema: a “gordura” é a falta de acesso de milhões de brasileiros e brasileiras a um direito básico de saúde.
Por que a perda auditiva é um problema de saúde pública no Brasil?
Não é só uma questão de mercado. É uma questão de justiça social. A perda auditiva afeta a comunicação, o convívio familiar, o trabalho e a autoestima. No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) até oferece aparelhos auditivos, mas as filas são longas e os modelos disponíveis nem sempre atendem às necessidades. Enquanto isso, as lojas particulares vendem equipamentos que podem custar milhares de reais.
O executivo austríaco admite que “há uma jornada individual que normalmente leva de três a sete anos, desde a pessoa sentir os primeiros sinais de que não está ouvindo bem até, de fato, procurar uma solução”. E explica que isso acontece porque “as pessoas são muito boas em criar mecanismos de compensação para lidar com o problema”. Mas a verdade é que, além da falta de informação, o custo e o estigma afastam as pessoas do tratamento.
Estigma e tecnologia: a aposta da Sonova para crescer no Brasil
A Sonova aposta na redução do estigma com o envelhecimento saudável. Lux acredita que “a primeira geração de pessoas que chegará aos 60 anos tendo passado duas décadas usando smartphones terá uma relação muito diferente com a tecnologia”. E é verdade: o aparelho auditivo moderno é um dispositivo digital com chip que processa o som com mais de 70 milhões de cálculos por segundo, além de inteligência artificial que se adapta ao usuário.
Mas de que adianta tanta tecnologia se a maioria da população não pode pagar? O investimento da empresa em inovação é de R$ 750 milhões por ano, mas o lucro de R$ 3,5 bilhões no último exercício mostra que o setor não está passando necessidade. A pergunta que fica é: quando o acesso vai ser democratizado de verdade?
Planos da Sonova para o Brasil: aquisições, óticas e microfranquias
Para crescer, a Sonova planeja abrir lojas próprias, adquirir empresas regionais e criar um modelo de microfranquias com audiologistas parceiros. Ricardo Hammerat Ribeiro, vice-presidente para América Latina, afirma que “a gente mantém nosso apetite para aquisições e pretende continuar investindo em consolidação do mercado brasileiro, priorizando regiões consideradas estratégicas”.
Além disso, a empresa quer entrar de vez no canal de óticas e grandes varejistas. “Ainda não temos uma presença organizada em óticas, mas vemos oportunidades de parceria com grandes redes desse canal”, diz Ribeiro. Ou seja, o aparelho auditivo pode virar item de prateleira, vendido como quem vende óculos de sol. Mas será que isso resolve o problema do acesso ou só amplia o mercado para quem já pode pagar?
O que falta para o Brasil ouvir melhor?
Enquanto a Sonova fala em dobrar de tamanho, milhões de brasileiros seguem sem diagnóstico e sem tratamento. O SUS, que deveria ser a porta de entrada para a saúde auditiva, enfrenta cortes e sucateamento. A luta por políticas públicas inclusivas e pela distribuição de renda é também uma luta pela saúde dos nossos ouvidos.
Que a vinda de mais investimentos seja bem-vinda, mas que não se esqueça: saúde é direito de todos, não mercadoria para poucos. A população brasileira não pode continuar sendo vista como “oportunidade de crescimento” enquanto o acesso real ao tratamento for um privilégio.
Foto: O Globo