Vítima ou cúmplice? A história de Nadia Marcinko com Epstein
Quando o financista Jeffrey Epstein cumpriu sua primeira pena de prisão, apenas 13 meses por aliciamento sexual de uma menor, uma mulher o visitou pelo menos 67 vezes na cadeia. Essa mulher era Nadia Marcinko, sua principal namorada por sete anos e, depois, copiloto de seu jato particular. Agora, o nome dela volta ao centro do debate: será que uma vítima de coerção sexual também pode ser chamada de cúmplice?
Quem é Nadia Marcinko?
Marcinko é uma das quatro mulheres listadas como “potenciais co-conspiradoras” de Epstein num acordo judicial de 2008 que lhes garantiu imunidade. Duas delas, Sarah Kellen e Lesley Groff, prestes a ser interrogadas por parlamentares americanos. Uma congressista republicana quer que todas quatro, incluindo Adriana Ross e Marcinko, sejam investigadas apesar do acordo.
Marcinko nunca foi acusada formalmente de nenhum crime. Seus advogados insistem: ela é vítima. Mas jovens de Palm Beach, na Flórida, que sofreram abuso quando menores, disseram à polícia que Marcinko participou dos abusos.
Da Eslováquia para as garras de Epstein
Nascida Nadia Marcinkova numa família de situação confortável na Eslováquia, ela conheceu Epstein em 2003, numa festa de aniversário de Jean-Luc Brunel, amigo próximo do financista e dono da agência de modelos Karin Models em Nova York. Marcinko trabalhava como modelo em Paris. Brunel a trouxe para os EUA com um visto que ele próprio providenciou.
O desequilíbrio de poder era brutal. Epstein tinha 50 anos. Ela, 18. Como Brunel patrocinava seu visto e Epstein financiava a agência com milhões de dólares, Marcinko sentia que
“Epstein poderia deportá-la com um único telefonema para Brunel.”
Um colega de escola que a BBC chamou de “Jozef” lembra:
“Ela era muito tímida. O que chamamos de šedá myška, um ratinho cinza.”
Controle, violência e submissão
E-mails encontrados nos arquivos do governo americano revelam a extensão do controle de Epstein sobre Marcinko. Ele ditava o que ela deveria cozinhar, ler, vestir e até quanto deveria pesar. Numa mensagem de 2009, Epstein escreveu:
“Eu quero que você aprenda a cozinhar ovos. Mexidos, pochê com a gema mole... Eu quero que você aprenda a administrar uma casa. Não quero discussões durante a semana... quero que você leia um dos cem grandes livros todos os meses... quero coisas bonitas apenas em casa. Você não pode colocar nada sem me deixar ver primeiro.”
Marcinko contou aos investigadores que Epstein a obrigou a fazer várias cirurgias plásticas, era fisicamente violento, chegou a sufocá-la e a jogar escada abaixo. Num e-mail, ela o acusa de “comportamento abusivo de parceiro”.
O recrutamento e a culpa
Os e-mails também mostram que Epstein pressionava Marcinko a recrutar outras mulheres. Em 2006, ela escreveu:
“O que você acha que é uma coisa divertida de sexo? Eu farei o que puder, mesmo que seja simplesmente você fazer sexo com outra pessoa... Vou tentar encontrar garotas sempre que estivermos em Nova York.”
Não há evidência de que ela tenha apresentado menores a Epstein. Mas o recrutamento de adultas por meio de fraude para fins de exploração sexual pode ser configurado como tráfico humano.
A dependência financeira a sufocava. Noutro e-mail de 2006, ela confessou:
“Desde que te conheci, minha vida gira em torno de você, não há mais nada que eu tenha e isso me deixa muito desconfortável.”
A fuga pela aviação
Em 2009, enquanto visitava Epstein na prisão, Marcinko começou a se libertar financeiramente. Epstein pagou dezenas de milhares de dólares para que ela treinasse como piloto. Ela se promovia nas redes como “Global Girl”. A jornalista de aviação Christine Negroni, que a conheceu em 2013, conta:
“Nadia era ótima. Uma companhia encantadora. Trabalhou muito duro frequentando escolas de aviação para obter seus certificados, um após o outro. Essas não são conquistas fáceis.”
Mas a libertação demorou. O relacionamento continuou após a saída de Epstein da prisão. Em 2009, tentavam ter um filho. Ela ainda recrutava mulheres para ele. A separação só veio em 2010, depois de um episódio de violência particularmente grave.
Mesmo assim, ela permaneceu amiga de Epstein. Foi copiloto em voos para a ilha dele a partir de 2012. Em 2015, Epstein ainda oferecia em dobro qualquer renda que ela ganhasse de outras fontes.
A virada: vítima e delatora
Em 2018, Marcinko finalmente mudou de lado e começou a cooperar com o FBI. Quando Epstein foi preso de novo em 2019, acusado de tráfico sexual, o FBI apoiou o pedido de permanência dela nos EUA após o término do visto em 2022. A agência classificou Marcinko como alguém
“recrutada, abrigada e obtida por Jeffrey Epstein e outros para fins de uma relação sexual coercitiva.”
Desde então, ela desapareceu da vida pública. Postagens sugerem que frequentou um centro zen-budista em Nova York. Seu advogado disse que ela quer falar sobre sua condição de vítima e ajudar outros sobreviventes, mas que está “trabalhando em sua cura”.
Imunidade questionada: justiça de elite sempre protege quem?
A imunidade concedida em 2008 a Marcinko e às outras três mulheres é questionada. A congressista republicana Anna Paulina Luna declarou em fevereiro:
“Todas essas mulheres se envolveram no tráfico de menores quando adultas. Eles estavam trabalhando e eram cúmplices da operação de Jeffrey Epstein.”
Mas a professora de direito Bridgette Carr, da Universidade de Michigan, especialista em tráfico humano, traz uma reflexão mais complexa. Ela questiona se a vítima continuou cometendo crimes depois de escapar do controle do agressor, lembrando que o controle pode persistir mesmo sem presença física.
“A linha que eu traço é se a vítima já estava longe do poder e do controle do agressor. A questão é se é razoável que a vítima acredite que o agressor ainda tem poder sobre ela.”
Uma consciência longe de limpa
Que escolhas Nadia Marcinko realmente teve durante sua longa associação com Jeffrey Epstein? É impossível saber com certeza. Mas um e-mail de 2012 talvez seja o mais revelador de todos:
“Eu não quero ficar com você, mas me chateia ver você usar exatamente os mesmos padrões para seduzir, manipular e, finalmente, controlar e ferir outras garotas. Eu nem gosto delas e, na verdade, me sinto culpada por saber como elas vão acabar. Eu sei do que você é capaz e sempre serei protetora em relação a você por pura lealdade e teimosia, mas minha consciência está longe de estar limpa.”
A história de Nadia Marcinko escancara o que o sistema de justiça americano tenta esconder: quando bilionários predadores usam seu poder para destruir vidas, as linhas entre vítima e cúmplice se embaralham. Enquanto Epstein teve um acordo judicial vergonhoso em 2008 que protegeu seus aliados, as sobreviventes carregam o peso de traumas que o sistema se recusa a reconhecer integralmente. A pergunta que fica não é apenas sobre Marcinko, mas sobre um mundo onde homens ricos compram silêncio, corpos e imunidade, e onde as mulheres, sob coerção, são forçadas a se tornar engrenagens de sua própria destruição.