Bilionários da IA compram o esporte: Lakers são só o começo
A venda surpreendente do Los Angeles Lakers na última semana não foi apenas mais uma negociação bilionária no mundo do esporte. Ela marca a chegada de uma nova geração de donos: os absolutistas da inteligência artificial, empresários que construíram fortunas apostando na tecnologia e agora enxergam nas franquias esportivas um porto seguro para seus capitais.
Joshua Kushner, fundador da Thrive Capital, e Bob Iger, ex-CEO da Disney, compraram a franquia avaliada em US$ 12,5 bilhões. Do outro lado, Mark Walter vendeu os Lakers menos de um ano depois de adquiri-los por US$ 10 bilhões. A operação, segundo Bloomberg e Financial Times, pode estar ligada à necessidade de levantar recursos para quitar empréstimos das seguradoras controladas por Walter.
Quem é Joshua Kushner, o novo dono dos Lakers?
Kushner, que deve se tornar o proprietário controlador mais jovem da NBA, construiu sua reputação como fundador da Thrive Capital, gestora criada em 2009 e especializada em tecnologia. No início deste ano, a empresa levantou mais de US$ 10 bilhões para um novo fundo direcionado a startups de tecnologia.
Os investimentos da Thrive em OpenAI, SpaceX e Anduril colocaram Kushner ao lado dos novos oligarcas da tecnologia, como Sam Altman, Elon Musk e Palmer Luckey. A gestora também possui ações da Amazon avaliadas em US$ 215,5 milhões.
O que a compra dos Lakers revela sobre o mercado esportivo?
A chegada dos bilionários da IA ao esporte não é coincidência. O jornalista Eben Novy-Williams, do Sportico, lembra que as vendas de equipes esportivas costumam refletir o que acontece na economia. Primeiro vieram os empreendedores da internet, depois os investidores do mercado imobiliário, em seguida o private equity. Agora é a vez dos evangelistas da inteligência artificial.
Mark Cuban é o exemplo perfeito dessa trajetória. Ele comprou o Dallas Mavericks em 2000, logo após vender a Broadcast.com para o Yahoo! por US$ 5,7 bilhões. Agora, por meio da Harbinger Sports Partners, adquiriu participação no Las Vegas Athletics. Desde 2019, Cuban investiu mais de US$ 100 milhões em quatro startups de IA.
“Se você não entende de IA, é como alguém em 1999 dizendo: 'Tenho certeza de que essa coisa da internet vai dar certo, mas não me importo'”, afirmou Cuban durante a CES de 2020.
Esporte contra a máquina: por que a IA não substitui a paixão?
Em janeiro, o Financial Times conversou com Adam Kelly, presidente da IMG, que trouxe uma provocação: “sport is the antidote to AI” (o esporte é o antídoto para a IA). Contra a inundação de conteúdos produzidos em escala, o esporte carrega elementos escassos na economia digital: horário marcado, audiência reunida e conexão emocional construída ao longo de décadas.
Os mesmos empresários que apostam em máquinas capazes de produzir conteúdo em escala buscam ativos culturais construídos sobre aquilo que ainda não pode ser replicado: identidade, comunidade e pertencimento.
O dono virou investidor: o que muda para os torcedores?
O Financial Times resgatou a história de Walter O'Malley, que começou como advogado do Los Angeles Dodgers nos anos 1940. Quando a franquia foi vendida em 2012 por US$ 2 bilhões, o grupo comprador já representava uma nova geração de capital financeiro. Famílias como os O'Malley construíram riqueza a partir do próprio esporte. Para investidores financeiros, equipes são parte de portfólios maiores, sujeitas às mesmas decisões de alocação de capital.
A pergunta que fica: uma franquia pode ser tratada como ativo financeiro e, ao mesmo tempo, continuar sendo símbolo cultural de uma comunidade?
A nova elite da tecnologia também chegou à NFL
Kushner pode ser apenas o começo. No mês passado, um grupo liderado por Vinod Khosla, sócio minoritário do San Francisco 49ers, concordou em comprar o Seattle Seahawks por cerca de US$ 9,6 bilhões, recorde para a NFL. Em 2019, a Khosla Ventures investiu US$ 50 milhões na OpenAI, participação avaliada em cerca de 5% da empresa na época. O valor dos Seahawks representa aproximadamente 192 vezes esse investimento inicial.
O valor de um ativo que não cabe no balanço
O preço pago pelos Lakers não reflete apenas receitas atuais, mas uma expectativa sobre o papel dessas marcas em uma economia disputada por atenção. O contrato de TV local da equipe com a Spectrum SportsNet rendeu US$ 192,1 milhões na temporada 2025-26. Mas o declínio das TVs por assinatura reduz a previsibilidade dos modelos tradicionais.
Kushner resumiu sua visão ao explicar a estratégia da Thrive Eternal, braço para ativos culturais: “O objetivo não é comprar, otimizar e vender. Escolhemos deliberadamente uma estrutura de capital permanente porque os ativos que queremos possuir merecem um horizonte de tempo medido em décadas.”
Para milhões de torcedores, uma franquia esportiva continua sendo patrimônio de memória, identidade e pertencimento. A questão é saber se os novos donos entenderão isso ou se enxergarão apenas números em uma planilha.