Das ruas de Roma para o Brasil: como o Carnaval nasceu da resistência dos oprimidos
Há mais de dois mil anos, nas terras do Império Romano, acontecia algo revolucionário. Durante uma semana, a ordem social era completamente virada de cabeça para baixo. Os escravos se sentavam à mesa dos senhores, mandavam e desmandavam, enquanto os poderosos serviam comida aos oprimidos. Era a Saturnália, a festa que deu origem ao nosso Carnaval.
Quando o medo da escuridão unia os povos
Imagine você como um trabalhador da Roma Antiga. Passou o ano todo quebrando as costas com colheitas ruins, sempre de olho no céu para saber quando plantar. Aí chega o inverno e você vê uma coisa apavorante: os dias ficam cada vez mais curtos, o sol nasce tarde e se põe cedo, fica mais baixo no horizonte a cada dia.
A luz se reduzia a poucas horas e o mundo mergulhava numa escuridão que parecia não ter fim. Claro, hoje sabemos que é só a Terra inclinando no seu eixo, um fenômeno astronômico normal. Mas naquela época, o povo não sabia disso. Para eles, o sol estava morrendo, talvez com raiva, e a escuridão permanente poderia engolir a todos.
E não era paranoia não, viu? Sem luz elétrica, sem aquecimento, sem janelas que isolam o frio e sem comida garantida nos mercados, a escuridão era perigosa de verdade. O frio matava.
O alívio que virou festa do povo
Quando percebiam que lá pelo dia 21 ou 22 de dezembro o sol parava de recuar e começava a subir devagarzinho no céu, não era só um suspiro de alívio. Era uma comemoração como se a vida dependesse disso, porque dependia mesmo.
O retorno do sol não significava apenas dias mais longos. Era a garantia de colheitas que matariam a fome, era a própria sobrevivência. Esse tipo de alívio cósmico merecia uma festa à altura. E os romanos não faziam nada pela metade.
Saturnália: quando os oprimidos tomavam o poder
A festa se chamava Saturnália, em homenagem ao deus Saturno. Durante uma semana, começando por volta de 17 de dezembro, a vida romana normal parava completamente. Tribunais fechados, escolas fechadas, empresas paradas. O trabalho era oficialmente proibido.
Mas o mais revolucionário era o que acontecia com a hierarquia social. Aquela estrutura rígida que definia quem mandava e quem obedecia na Roma escravista era temporariamente suspensa. Os escravos podiam comer na mesma mesa que seus senhores. Os senhores serviam comida aos seus escravos.
As pessoas trocavam pequenas velas de cera e estatuetas de barro, realizavam enormes banquetes públicos onde o vinho corria solto. Elegiam falsos reis para presidir as festividades. O povo comum ganhava uma autoridade absurda, mandava e desmandava em tudo.
A herança que chegou até nós
Os romanos não eram nada sutis em suas festas, e sua influência na vida europeia foi profunda. Dessa inversão social temporária, dessa festa onde os de baixo subiam e os de cima desciam, nasceu o que conhecemos hoje como Carnaval.
É bonito pensar que nossa maior festa popular tem essa origem: um momento em que os oprimidos podiam zombar de seus opressores sem perder a cabeça, onde a ordem injusta era questionada, mesmo que por poucos dias.
O Carnaval brasileiro, com toda sua potência transformadora e seu poder de dar voz aos que não têm voz no resto do ano, carrega essa herança ancestral de resistência e inversão social. É a festa do povo que, por alguns dias, toma as ruas e vira o jogo.