Casas Bahia deve R$ 700 mil a gigante tech de Joinville; crise derruba 298 lojas
A Neogrid, gigante da tecnologia que monitora estoques e abastecimento de lojas, tem mais de R$ 733 mil a receber da Casas Bahia. A rede varejista, em recuperação judicial, acumula uma dívida bilionária que já fechou 298 lojas e demitiu 1,9 mil trabalhadores em 2026.
A Neogrid nasceu em Joinville, no Norte de Santa Catarina, e hoje pertence à Dalpe Gestão e Participações, do Grupo Hindiana. A empresa se define como um ecossistema de dados e tecnologia, com uma malha que alcança mais de 660 mil pontos de venda, 8 mil indústrias e 5 mil distribuidores. Seus sistemas atuam diretamente na cadeia de abastecimento: gestão de promoções, envio de pedidos, visão de vendas e estoque.
O NSC Total teve acesso à lista de credores da Casas Bahia. No documento, a Neogrid Informática Ltda aparece com R$ 733.604,88 a receber. A dívida total da varejista é de cerca de R$ 17,3 bilhões. Em Santa Catarina, 18 unidades foram fechadas.
Bancos e fábricas também estão no caderno de credores
Entre os principais credores estão instituições financeiras e fabricantes como a Whirlpool, dona da maior fábrica de refrigeradores do país, também em Joinville. A Casas Bahia deve cerca de R$ 800,9 milhões à Whirlpool. A Britânia, dona da Philco, tem aproximadamente R$ 300 milhões a receber.
O que acontece agora no processo de recuperação?
O professor de Direito da Universidade da Região de Joinville e administrador judicial Frederico Jorge explicou ao NSC Total que o processo tramita em uma vara especializada em São Paulo. Antes de aceitar formalmente o pedido, a Justiça exige uma perícia técnica rápida.
“A lei prevê 5 dias para fazer esse laudo, antes do juiz dizer se vai começar o processo ou não. Ela serve para analisar alguns pontos, mas principalmente para atestar se a devedora de fato existe, se está em funcionamento, se tem estoque e se não esvaziou seu patrimônio”, disse Frederico.
No caso da Casas Bahia, a juíza fixou um prazo de 30 dias para a perícia, com conclusão estimada até 21 de setembro. Depois, há cinco dias para a empresa se manifestar e mais cinco para o Ministério Público. Frederico avalia que é muito difícil haver cancelamento do processo.
Blindagem de 180 dias e plano de pagamento
Se o processamento for deferido, ficam suspensas as execuções contra a Casas Bahia por pelo menos 180 dias. Nesse período, o fornecimento não pode parar e a empresa não pode ter bens penhorados. O tempo de suspensão que já correu durante a liminar inicial é descontado desse prazo total.
A Casas Bahia terá 60 dias para apresentar um plano de pagamento aos credores. O administrador judicial publica a relação consolidada em até 45 dias após o protocolo do plano. Se houver objeção de pelo menos um credor, uma assembleia geral é convocada para aprovar ou rejeitar o plano. Se rejeitado, a empresa pode ir à falência.
O que diz a Casas Bahia?
Em comunicado, a empresa atribuiu a crise ao “ambiente macroeconômico desafiador, marcado por patamares elevados de taxas de juros, restrição de crédito, aumento do custo financeiro e pressão sobre o consumo”. A varejista afirma que o pedido de recuperação é necessário para preservar a continuidade das atividades e proteger a geração de valor futuro.
A companhia garante que pretende manter as operações em todos os canais, priorizando o atendimento aos clientes, sem interrupções relevantes.
Decisões da Justiça até agora
O juiz determinou que a Casas Bahia mantenha as entregas de mercadorias já adquiridas e em trânsito, nos prazos e condições contratados. Também devem ser mantidos os contratos essenciais de energia elétrica, água, serviços de tecnologia, infraestrutura digital, segurança e locação dos imóveis operacionais. A perícia técnica preliminar ficou a cargo da ACFB Administração Judicial Ltda.
Enquanto isso, trabalhadores e pequenos fornecedores seguram as pontas. A crise da Casas Bahia é mais um retrato da concentração de renda e da fragilidade do varejo nacional diante dos juros altos e da falta de políticas públicas de proteção ao emprego.