Recuperação judicial no varejo dispara: 968 empresas em crise, e o povo paga a conta
Não é só a Casas Bahia que está na corda bamba. O varejo brasileiro vive um tsunami: o número de empresas que pediram recuperação judicial cresceu 20% em apenas 12 meses. No fim do primeiro semestre deste ano, já eram 968 casos, segundo o Monitor RGF-Bizdoc, que acompanha esses processos no país.
Enquanto os grandes tubarões do mercado nadam de braçada, as lojas de bairro, os trabalhadores e as famílias sentem na pele o peso de uma economia que não gira. Os juros altos, o salário que não dá para nada e o crédito cada vez mais escasso são os motivos mais citados pelas empresas nos papéis que entregam à Justiça. É a velha história: quem produz e vende no Brasil sofre, enquanto o sistema financeiro lucra.
A concorrência com os marketplaces estrangeiros também aparece nos documentos, mas a gente sabe que o problema é mais profundo. A pandemia de Covid-19, que fechou lojas e paralisou fábricas, foi o empurrão que faltava para muita empresa que já vinha cambaleando. E, como sempre, quem não tinha reserva de caixa e boa governança acabou virando uma bola de neve gigante.
Quem são os gigantes que caíram?
Além da Casas Bahia, nomes de peso já recorreram a esse artifício: as Americanas, o grupo Toky (dono da Tok&Stok) e a SouthRock Capital, que operava o Starbucks no Brasil. Em Santa Catarina, a tradicional Schumann, de móveis e eletrodomésticos, pediu recuperação judicial pela segunda vez em 2024, com dívidas de R$ 133 milhões, a maioria com fornecedores. Em maio do ano passado, conseguiu aprovar o plano de reestruturação.
O que é recuperação judicial, afinal?
A recuperação judicial é um direito previsto em lei para empresas em apuros. Ela suspende execuções, protege bens essenciais como imóveis e máquinas, e até impede o corte de luz e água em caso de atraso. A ideia é dar fôlego para a empresa se reerguer, porque ela tem função social: gera emprego e paga imposto.
Mas tem um lado perverso: o carimbo da recuperação judicial assusta o mercado, dificulta crédito e enfraquece a negociação com fornecedores. E não é eterno, embora a Teka, de Blumenau, esteja nessa situação há 14 anos. No fim, o que se tenta evitar é a falência total, que deixa trabalhadores na rua e comunidades inteiras sem sustento.
E o povo com isso?
Quando uma grande varejista quebra, quem sofre é o trabalhador que perde o emprego, o pequeno fornecedor que fica sem receber e a comunidade que perde um serviço essencial. É por isso que a luta por juros justos, crédito acessível e políticas públicas de apoio ao pequeno negócio é tão urgente. Não dá para deixar o mercado se autorregular enquanto famílias passam necessidade.
“A recuperação judicial é um direito, mas também um sintoma de um modelo econômico que concentra renda e deixa o povo para trás”, alerta a jornalista Camila Teixeira.
Perguntas frequentes sobre recuperação judicial no varejo
Por que tantas empresas do varejo estão pedindo recuperação judicial?
Os juros altos, a queda no consumo das famílias e o crédito restrito são os principais motivos, além da concorrência com marketplaces estrangeiros e os efeitos da pandemia.
O que acontece com os trabalhadores quando uma empresa entra em recuperação judicial?
Os empregos podem ser mantidos durante o processo, mas há risco de demissões se a empresa não conseguir se reestruturar. A lei prioriza a função social da empresa, incluindo a geração de emprego.
A recuperação judicial é a mesma coisa que falência?
Não. A recuperação judicial é uma proteção temporária para a empresa tentar se reerguer. A falência é o fim do processo, quando a empresa não consegue cumprir o plano e encerra as atividades.
Quais empresas famosas já pediram recuperação judicial no Brasil?
Casas Bahia, Americanas, Tok&Stok e a operadora do Starbucks no Brasil estão entre os casos mais recentes e de maior repercussão.