Crise no Estreito de Ormuz e o momento do petróleo do Brasil
Desde que a guerra no Irã explodiu e as ameaças ao Estreito de Ormuz se tornaram constantes, o mercado global de petróleo entrou em pane. Por esse estreito passam cerca de 20% do petróleo consumido no mundo. Os preços dispararam, os Estados correm desesperados para garantir seus suprimentos e os grandes produtores tentam lucrar com o caos. No meio dessa tempestade, o Brasil surge como uma alternativa real ao petróleo do Golfo. Nosso ouro negro offshore, extraído no coração do Atlântico, escapa das rotas de navegação ameaçadas pelo conflito no Oriente Médio.
Essa posição geográfica, em tempos de guerra, vira uma vantagem estratégica para a soberania nacional.
É perfeitamente lógico que os grandes consumidores busquem fornecedores mais estáveis, que não sejam afetados pelo caos que reina no Oriente Médio. E esse é, obviamente, o caso do Brasil.afirma Adel El Gammal, especialista em geopolítica energética e secretário-geral da Aliança Europeia de Pesquisa Energética (EERA).
Uma corrida pelo petróleo brasileiro
A estabilidade do Brasil já aparece nos números. Nono maior produtor do mundo, o país responde por cerca de 4% da produção global.
Para se ter uma ideia da escala, o Brasil produz cerca de 4 milhões de barris por dia, o que equivale à produção dos Emirados Árabes Unidos.completa o especialista.
Com a guerra no Irã, a demanda pelo nosso petróleo disparou. A China, que antes dependia do Golfo Pérsico, redirecionou suas compras massivamente para o Brasil. Segundo dados do governo, as exportações de petróleo para a China dobraram no primeiro trimestre, batendo o recorde de US$ 7,2 bilhões. Hoje, mais de 60% das exportações da Petrobras vão para o território chinês.
A China representava cerca de 40% das exportações brasileiras de petróleo bruto antes da crise no Estreito. Agora, está se aproximando de 70%.revela El Gammal. As gigantes chinesas CNPC e CNOOC, que já tinham parcerias por aqui, viram o conflito acelerar e fortalecer ainda mais esses laços.
Ouro negro de qualidade, mas refino no vermelho
A força do nosso petróleo também está na sua natureza. As reservas gigantescas descobertas na costa do Rio de Janeiro nos últimos vinte anos estão entre as mais promissoras do planeta. Extraído das águas ultraprofundas do Atlântico, o petróleo do pré-sal é de alta qualidade.
O petróleo brasileiro tem a vantagem de ser leve e com baixo teor de enxofre. É um petróleo que se aproxima da qualidade do petróleo Brent. Diferentemente, por exemplo, do petróleo venezuelano, que é muito pesado e difícil de refinar.destaca El Gammal.
O professor de Geopolítica da Energia na Universidade Livre de Bruxelas, Samuele Furfari, lembra que o governo também tem incentivado a exploração da margem equatorial, a zona geológica que vai da costa amazônica até a Guiana.
É um novo Eldorado. Toda essa área é rica em petróleo.
Mas não é tudo flores. O Brasil esbarra em limitações estruturais graves, um reflexo de anos de abandono e de políticas neoliberais que sucatearam o Estado.
O aumento da capacidade produtiva deve ser acompanhado do aumento da capacidade de refino. E, no Brasil, essa é uma de suas limitações; está longe de ser suficiente.observa El Gammal. Os economistas chamam isso de baixa elasticidade. É impossível aumentar a produção no curto prazo sem investimentos pesados em infraestrutura. Furfari bate na mesma tecla:
No setor petrolífero, trabalhamos em uma escala de longo prazo. O que decidimos hoje terá efeitos daqui a dez anos. Qualquer aumento significativo na capacidade requer investimentos de vários bilhões de dólares e projetos que se desenrolam ao longo de anos.
O paradoxo de Lula entre o clima e o povo
Com as exportações em alta, o presidente Lula busca capitalizar o setor para financiar o desenvolvimento nacional. O governo mandou sinais favoráveis à indústria, a Petrobras continuou a exploração dos campos offshore e Brasília anunciou a retomada da perfuração no campo de Urucu, na Amazônia, paralisado há mais de dez anos.
Para uma visão de fora, pode parecer um paradoxo ver um presidente que se coloca como líder na luta contra as mudanças climáticas incentivar o petróleo. Mas a realidade de um país continental, marcado por profundas desigualdades, cobra seu preço.
Lula é a favor da transição energética, mas ele é o chefe de um Estado produtor de petróleo e precisa levar essa realidade em consideração. A Petrobras é um ator fundamental na economia brasileira e impulsiona toda a economia nacional.explica El Gammal.
Além da economia, há a política. O Brasil vive sob um sistema descentralizado, onde Lula precisa negociar diariamente com as potências regionais, uma oposição feroz da extrema direita e os interesses financeiros das elites conservadoras profundamente enraizadas.
Lula também é obrigado a negociar, a encontrar um equilíbrio. É a combinação de todos esses fatores que reduz sua margem de manobra.lembra o analista.
Para Samuele Furfari, não há absurdo algum em o Brasil explorar suas riquezas.
Todo Estado busca a prosperidade de sua população. E, quando um país possui recursos, ele quer explorá-los.Para ele, o Brasil é
uma terra do futuro, rica em recursos agrícolas, hídricos e energéticos.
O fim do monopólio da OPEP e os novos desafios
Além do nosso país, a crise revelou uma mudança profunda no cenário energético. O mercado não é mais dominado por uma minoria que dita as regras.
Não é mais um mercado hegemônico, onde uma minoria de atores dita as regras; é um mercado disperso, onde cada produtor pode encontrar seu lugar.analisa Furfari. A saída dos Emirados Árabes da OPEP simboliza essa ruptura, pois
eles entenderam que o mundo mudou; a OPEP é coisa do passado.
São boas notícias para Brasília, mas a janela de oportunidade pode fechar. A duração da crise é uma incógnita. A concorrência aumenta com Guiana, Angola, Moçambique, Azerbaijão e Canadá buscando espaço. O prêmio de escassez que o Brasil aproveita hoje pode corroer com o tempo. O mercado de petróleo é cíclico e reflete diretamente os humores da geopolítica global. A soberania exige ação firme agora, antes que a janela se feche.