O homem que virou a chave: terras raras de Goiás agora são dos EUA
A venda da Serra Verde para a USA Rare Earth, um negócio de US$ 2,8 bilhões, não foi apenas mais uma transação corporativa. Ela colocou a riqueza mineral de Goiás no centro da estratégia geopolítica dos Estados Unidos contra a China. E quem vai comandar essa ponte entre os dois países é Thras Moraitis, o executivo que virou a chave da mineradora brasileira para o lado americano.
Moraitis, de 63 anos, assume como CEO da nova empresa a partir de outubro. A mudança no comando mostra que Washington não quer só comprar o minério. Quer controlar o processo. A saída de Barbara Humpton, que era a CEO anterior, e a ascensão de Moraitis reforçam que a operação será gerida por quem já estava dentro do negócio brasileiro.
Quem é Thras Moraitis, o engenheiro que virou estrategista
Moraitis nasceu britânico e grego, foi criado na África do Sul e começou a carreira como engenheiro em minas de ouro. Mas seu talento mesmo é para montar grandes negócios. Ele foi chefe de Estratégia da Xstrata, participou de cerca de 40 transações e é parceiro de longa data de Mick Davis, ex-CEO da Xstrata e atual presidente do conselho da Serra Verde. Os dois também atuaram juntos na X2 Resources, que levantou US$ 5,6 bilhões para aquisições no setor mineral.
Foi Moraitis quem assumiu a Serra Verde em janeiro de 2023, quando novos investidores liderados pela Vision Blue Resources e pela Energy & Minerals Group entraram na empresa. Sob seu comando, a mineradora acelerou a ruptura com a China e virou a chave para os Estados Unidos.
Como a Serra Verde trocou a China pelos EUA
A mineradora tinha contratos de dez anos com empresas chinesas, as únicas capazes de processar em escala as terras raras pesadas extraídas em Goiás. Moraitis renegociou esses acordos. Eles terminam no fim de 2026. No lugar, vieram compradores ocidentais.
A virada veio com um financiamento de US$ 565 milhões da International Development Finance Corporation (DFC), agência do governo americano. E mais: um contrato de 15 anos para vender 100% da produção de neodímio, praseodímio, disprósio e térbio da primeira fase do projeto a um veículo capitalizado por entidades dos EUA e investidores privados. O acordo ainda prevê pisos de preço para proteger a operação da volatilidade e de eventuais movimentos chineses.
A influência de Washington não para por aí. A DFC ganhou direitos econômicos sobre a Serra Verde e instrumentos de participação na governança. O fechamento da aquisição depende de consentimentos da agência americana. Do outro lado, a USA Rare Earth tem acordos que podem liberar até US$ 1,6 bilhão em financiamento e apoio do Departamento de Comércio dos EUA.
E o Brasil com isso?
No Brasil, a transação já virou alvo de questionamentos no STF, na PGR, no Cade e no Ministério de Minas e Energia. O MME respondeu à Câmara que a ANM ainda não recebeu uma operação de transferência ou cessão dos títulos minerários. O ministério ressaltou que uma aquisição do controle societário não equivale necessariamente à transferência direta desses direitos.
Essa diferença de tratamento escancara a dimensão geopolítica do negócio. Enquanto o Brasil analisa a operação como uma simples mudança de controle societário, os Estados Unidos a apresentam como parte de sua política de segurança nacional e de redução da dependência da China. Moraitis, que já se encontrou com representantes do Departamento de Estado, será o executivo responsável por administrar essa ponte entre os dois países.
O que fica para o Brasil?
A USA Rare Earth afirma que a incorporação da Serra Verde permitirá formar a primeira cadeia totalmente integrada de terras raras do Ocidente, da extração à fabricação de ímãs. Mas ainda não está claro quanto da produção ou do processamento permanecerá disponível para a indústria brasileira.
Essa é a pergunta que não quer calar. Enquanto isso, a riqueza de Goiás segue na órbita de Washington, e Moraitis se torna um dos personagens centrais da relação econômica entre Brasil e Estados Unidos. Para os brasileiros, resta saber se essa história vai ter um final justo ou se vamos ficar só com o pó.
“A diferença de tratamento resume a dimensão geopolítica do negócio. Enquanto, no Brasil, a operação é analisada inicialmente como uma mudança de controle societário, os Estados Unidos a apresentam como parte de sua política de segurança nacional.”
Perguntas que ficam no ar
Quanto das terras raras de Goiás vai ficar para o Brasil?
Ainda não há definição. A USA Rare Earth promete uma cadeia integrada no Ocidente, mas não há garantias de que a produção ou o processamento atenderão à indústria brasileira.
Por que os EUA estão tão interessados nas terras raras de Goiás?
Porque elas são essenciais para a fabricação de ímãs usados em carros elétricos, turbinas eólicas e equipamentos militares. E os EUA querem reduzir a dependência da China, que domina o mercado global.
O governo Lula pode barrar a venda?
Teoricamente, sim. Mas a operação está sendo tratada como mudança de controle societário, não como transferência de títulos minerários. O STF, a PGR e o Cade já foram acionados, mas ainda não há decisão.