Fraude no Provão Paulista? Estudo denuncia irregularidades e Seduc rebate
Um estudo divulgado pela Rede Escola Pública e Universidade (Repu) acusa o Provão Paulista, processo seletivo criado pelo governo Tarcísio de Freitas em 2023, de apresentar uma fraude sistêmica. A avaliação, que promete facilitar a entrada de estudantes da rede pública nas universidades estaduais (USP, Unesp, Unicamp e Fatecs), teria resultados manipulados em várias escolas. A Secretaria de Educação de São Paulo (Seduc) nega as acusações.
Os pesquisadores analisaram os microdados das três primeiras edições do Provão, obtidos via Lei de Acesso à Informação, e encontraram padrões estatísticos estranhos. No exame de 2025, por exemplo, milhares de alunos do 3º ano do Ensino Médio tiveram saltos de notas que não se explicam por mérito individual. Já nas ETECs (escolas técnicas), o índice de resultados atípicos foi de apenas 0,17%, considerado normal.
O que os dados revelam?
O estudo mostra que 50% dos desempenhos atípicos estão concentrados em apenas 50 escolas estaduais, que representam 1,4% das unidades participantes. Em 44 escolas, mais de 40% dos estudantes tiveram resultados fora do comum, chegando a mais de 90% em algumas. Nas ETECs e escolas municipais, o mesmo fenômeno não aparece.
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores compararam a evolução das notas entre 2023 e 2025. Um resultado era considerado atípico quando a variação era de cerca de 20 pontos em um exame de 90 questões. A mediana de acertos da rede estadual ficou entre 23 e 30 questões, enquanto nas ETECs e municipais variou de 29 a 46. Se os alunos chutassem todas as respostas, a média seria de 18 acertos.
Fraude sistêmica ou irregularidades pontuais?
O professor Leonardo Crochik, do IFSP e um dos autores da nota técnica, é categórico: “Embora grande parte dos resultados atípicos estejam concentrados em algumas escolas e regiões, esse fenômeno se manifesta em várias partes do estado de São Paulo. É isso o que permite concluir que a fraude é sistêmica e incompatível com a hipótese de irregularidades pontuais defendida pelo governo de São Paulo no final de 2025”.
Ele explica que a análise estatística não prova que cada aluno fraudou a prova, mas que as condições de aplicação não foram homogêneas. “O problema identificado é de outra natureza”, afirma.
O professor Fernando Cassio, da USP, também integrante da Repu, alerta para uma possível manipulação de dados com interesses políticos. Os pesquisadores pedem que o governo reconheça os problemas e revise todo o processo antes da edição de 2026, prevista para novembro, além de criar mecanismos permanentes de auditoria.
Fraudes afetaram lista de convocados para o ensino superior
O estudo também mostra que muitos alunos com resultados atípicos já estão nas universidades. Dos 14.271 estudantes da rede estadual convocados no primeiro semestre de 2026, 1.608 (11,3%) vieram de escolas com mais de 20% de resultados atípicos. Em nove escolas com situações extremas, 90% dos alunos tiveram desempenhos suspeitos e 85% foram convocados.
“O governo de São Paulo tem usado a propaganda de que os estudantes da rede estão acessando mais as universidades por conta dessa via alternativa. Veja, o maior acesso está longe de ser um problema, a questão é que isso não pode ser feito com uma avaliação que não tem confiabilidade alguma”, completa Crochik.
O que diz a Secretaria de Educação?
A Seduc rebate as acusações. Em nota, afirma que os dados “não permitem sustentar a conclusão de ocorrência de fraude sistêmica no Provão Paulista nem de comprometimento do processo seletivo”. Para a pasta, associar resultados atípicos a fraude é uma “correlação temerária”.
A secretaria reconhece que, em 2025, seis estudantes foram flagrados com celulares durante a prova, mas diz que as provas foram anuladas e as equipes orientadas. Ainda assim, a Repu insiste: a concentração de casos em escolas específicas e a queda na dispersão das notas não podem ser explicadas por outras hipóteses, como características socioeconômicas ou mudanças na gestão escolar.
Perguntas frequentes sobre o Provão Paulista
O que é o Provão Paulista?
É um processo seletivo seriado criado pelo governo Tarcísio em 2023 para facilitar a entrada de alunos da rede pública nas universidades estaduais de São Paulo (USP, Unesp, Unicamp e Fatecs).
O que o estudo da Repu encontrou?
O estudo encontrou padrões estatísticos atípicos nos resultados de 2025, concentrados em poucas escolas, e concluiu que há indícios de fraude sistêmica na aplicação do exame.
O governo de São Paulo reconhece o problema?
Não. A Seduc contesta os dados e afirma que resultados atípicos não são evidência de fraude, defendendo a confiabilidade do processo.
O debate está longe de terminar. O que está em jogo é a confiança em um sistema que decide o futuro de milhares de jovens. E, como sempre, quem paga a conta são os estudantes e a educação pública.