Lula e os trabalhadores de aplicativos: a nova batalha da classe que mudou de cara
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) começa sua última campanha pela Presidência no mesmo lugar onde as greves dos anos 1970 o lançaram na política nacional. Mas o cenário mudou. O chão de fábrica que forjou o PT deu lugar a uma geração de trabalhadores de aplicativos, conectados, autônomos e, muitas vezes, desconfiados do Estado. Aos 80 anos, Lula enfrenta o desafio de reconquistar uma classe trabalhadora que já não se reconhece nos sindicatos nem na carteira assinada.
No Estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo (SP), milhares de operários se reuniam há quase 50 anos para lutar por direitos. Hoje, o movimento que mudou a história do país praticamente desapareceu. Em seu lugar, cresce uma economia de bicos, plataformas e algoritmos, onde a estabilidade do emprego formal não é a regra e, para muitos, nem é desejada.
“Houve uma mudança substancial no mundo do trabalho”, reconheceu Lula em discursos recentes. “E nós precisamos adequar o nosso discurso ao mundo do trabalho, que não é só a carteira profissional assinada.”
O que o PT propõe para os trabalhadores de aplicativos?
Para a eleição de outubro, o PT aposta em pautas concretas: redução da jornada de trabalho, fim da escala 6×1 e novas proteções para quem vive dos aplicativos. Isso inclui regras sobre remuneração, condições de trabalho, benefícios previdenciários e até transparência nos algoritmos das plataformas.
Mas a resistência das grandes empresas de tecnologia tem travado esses avanços. E uma parcela significativa dos 2,1 milhões de trabalhadores de plataformas digitais no Brasil, número que cresceu 170% entre 2015 e 2025 segundo o Banco Central, olha com ceticismo para a intervenção do governo.
“Deveriam passar um dia com a gente nas ruas”
Darlan Almeida, de 27 anos, é um retrato dessa nova classe. Filho de nordestinos, ele nasceu em São Bernardo do Campo, a mesma cidade onde o pai foi operário e admirador de Lula. O pai contava que as fábricas chamavam trabalhadores com “carro nas ruas”. Hoje, Darlan trabalha há sete anos como entregador por aplicativos e não herdou a admiração pelo presidente.
A conta dele é simples: um emprego CLT pagaria cerca de R$ 3 mil. Nos aplicativos, ele diz ganhar R$ 8 mil, ficando com R$ 5,5 mil após as despesas com a moto. “Eles não sabem do que a gente precisa nem como a gente trabalha. Deveriam passar um dia com a gente nas ruas”, dispara.
Já Eduardo Marini Filho, de 51 anos, motorista de aplicativo, valoriza a flexibilidade. Eleitor de direita, critica as condições de trabalho, mas teme a regulamentação. “Se impuserem uma exigência mínima de tarifa, como o governo quer, acho que a Uber vai sair do país”, afirma.
Por que tantos trabalhadores de aplicativos se identificam com a direita?
Pesquisadores apontam que a recessão de 2015-2016 empurrou milhões para a informalidade e, depois, para as plataformas. Esse novo trabalhador, muitas vezes, se enxerga como “empreendedor”, dono do próprio destino.
“Com o surgimento da economia de plataforma, surgiu um novo tipo de trabalhador autônomo que acredita ser seu próprio empresário. Isso os leva a defender que não precisam do governo, que o governo apenas atrapalha”, explica Oswaldo Amaral, do Centro de Estudos de Opinião Pública da Unicamp.
Uma pesquisa Datafolha de 2023, encomendada pela Uber e pelo iFood, mostrou que 40% dos motoristas se classificam como de direita, 40% como de centro e apenas 20% como de esquerda.
O PT perdeu o bonde da história?
O PT nasceu do movimento sindical, ligado ao emprego formal e à relação empregador-empregado. Os trabalhadores de aplicativos não se encaixam nesse molde. “O PT não tinha uma mensagem adaptada a esse grupo”, admite Marco Teixeira, professor de ciências políticas da FGV em São Paulo. “O objetivo agora é compreender essa nova face do capitalismo.”
Uma pesquisa encomendada pelo próprio PT ao instituto Vox Populi, em junho do ano passado, revela as contradições desse grupo. Enquanto 65% dos entrevistados dizem querer ser empreendedores, apenas 27,5% preferem o emprego formal. Mas 56% afirmam que ter direitos trabalhistas é “muito importante”.
Entre as medidas mais desejadas estão o adicional de periculosidade, os adicionais por doença e acidente e um piso salarial mínimo. Ou seja: querem independência, mas também querem proteção.
Há um caminho para a reconexão?
Rogério do Santo, de 43 anos, dirigiu para a Uber por sete anos e agora procura um emprego formal. As tarifas baixas reduziram seus ganhos, e a falta de representação organizada deixa os motoristas sem força para reivindicar melhorias. “Não temos ninguém do nosso setor para nos representar e buscar melhorias ou benefícios em nosso nome”, lamenta.
O presidente do PT, Edinho Silva, reconhece o problema. “O movimento sindical e as organizações de esquerda não estão conseguindo abordar as condições de trabalho desses trabalhadores. Não estão dialogando com eles, não estão organizando-os e não estão presentes em seu dia a dia”, afirma. Ele sugere que as cooperativas podem ser um caminho para organizar o setor.
A taxa de sindicalização no Brasil caiu pela metade na última década: era 15,7% em 2014 e chegou a 8,9% em 2024. Quase 40% dos trabalhadores de plataformas dizem que um sindicato próprio seria benéfico, mas a mesma porcentagem afirma que não se filiaria a um.
A questão é central para a estratégia do PT, que busca reconstruir laços com uma classe trabalhadora moldada pelas telas, não pelas linhas de montagem. Na plataforma de governo divulgada nesta semana, o partido promete “estabelecer um sistema para proteger os trabalhadores da economia digital e das plataformas, que regule adequadamente a atividade empresarial e defina as regras para a relação de trabalho, remuneração, condições de trabalho, proteções e direitos trabalhistas e previdenciários, além da transparência algorítmica”.
A pergunta que fica é: será que essa mensagem vai chegar a quem vive na ponta, pedalando ou dirigindo pelas ruas do Brasil? A resposta, nas urnas, virá em outubro.
Perguntas frequentes sobre Lula e os trabalhadores de aplicativos
O que o governo Lula propõe para os trabalhadores de aplicativos?
O governo propõe regulamentar o setor com regras sobre remuneração mínima, condições de trabalho, benefícios previdenciários e transparência dos algoritmos das plataformas. A proposta enfrenta resistência das empresas e do Congresso.
Por que trabalhadores de aplicativos tendem a votar na direita?
Muitos se identificam como “empreendedores” e acreditam que o Estado atrapalha sua autonomia. Pesquisas mostram que 40% dos motoristas se declaram de direita, 40% de centro e apenas 20% de esquerda.
O PT ainda representa a classe trabalhadora?
O partido nasceu ligado aos sindicatos e ao emprego formal, mas busca se adaptar à nova realidade do trabalho digital. A taxa de sindicalização caiu de 15,7% (2014) para 8,9% (2024), e o PT tenta encontrar novas formas de organização, como cooperativas.