O médico vascular Luciano Lopes Pastor, de 52 anos, morreu na tarde de sábado (18) após trocar tiros com a Polícia Militar em Catanduva, no interior de São Paulo. Ele havia ameaçado de morte a companheira durante uma discussão em casa, com dois filhos menores presentes. Segundo apuração do UOL notícias, a polícia encontrou na residência uma medalha com suástica e um verdadeiro arsenal de armas e munições.
O caso foi registrado na Delegacia Seccional de Catanduva como violência doméstica, ameaça contra a mulher, resistência e homicídio decorrente de oposição à intervenção policial. A Polícia Civil investiga, e um Inquérito Policial Militar (IPM) foi instaurado para apurar a ação dos agentes.
O que a polícia encontrou na casa
Na varredura do imóvel, a polícia apreendeu um Kit Roni CAA, acessório que transforma uma pistola semiautomática em uma carabina compacta. Também foram localizados três espadas, dois espetos e um facão, dois coldres e um carregador.
Boletim de ocorrência obtido pelo UOL notícias detalha o resto do material: uma maleta da Taurus, um radiocomunicador, três caixas com 50 cartuchos para .357 Magnum, mais 14 cartuchos do mesmo calibre, uma caixa com 41 cartuchos .38 SPL +P, outra com 39 cartuchos .38 SPL e 25 cartuchos calibre 7.63.
A lista segue: 98 estojos deflagrados de diversos calibres, 43 cartuchos .380, 35 cartuchos calibre 9mm e uma réplica de granada, que exigiu acionamento de equipe especializada para verificação. Entre as armas estavam um revólver calibre .38, um revólver Taurus .357 Magnum, uma pistola Imbel .380 e duas espingardas, uma delas com luneta. Duas pistolas da marca Mauser, uma com dizeres em alemão, também foram apreendidas.
A medalha com suástica encontrada na casa ganha peso diante desse quadro. Não é um enfeite qualquer. É o símbolo de um projeto de morte que matou milhões e que, no Brasil de hoje, circula com uma naturalidade que deveria nos assustar.
CAC sem documentação e cofre que ninguém conseguiu abrir
Dois cofres foram achados na residência. Um estava aberto, com armas e munições dentro. Um advogado da família acompanhou a diligência e alegou que Luciano era CAC (Caçador, Atirador e Colecionador). Só que não foi encontrada nenhuma documentação que confirmasse a regularidade do arsenal. Tudo foi apreendido para verificação posterior.
O segundo cofre seguiu fechado. Nem o advogado conseguiu informar como abri-lo.
Esse detalhe expõe um debate que o Congresso insiste em empurrar para baavo do tapete. O governo Bolsonaro (2019-2022) flexibilizou o acesso a armas e munições de forma sem precedente, e o desarmamento desses arsenais virou uma batalha permanente. Cada arma em mãos erradas é uma tragédia em potencial; o caso de Catanduva é apenas a mais recente.
Como a tragédia aconteceu
Segundo a polícia, a companheira de Luciano ligou para a PM e relatou ter sido ameaçada de morte pelo marido, que estava armado e com comportamento agressivo. Ele teria bebido durante um churrasco e, ao chegar em casa, começou a discutir com ela, ameaçando também as pessoas presentes, incluindo dois filhos menores de 18 anos.
Quando os policiais chegaram, a mulher estava na área externa. Os filhos, de 14 e 10 anos, estavam dentro da casa com o pai. Os agentes iniciaram o protocolo de negociação. Luciano se abrigou atrás de um pilar de madeira, apontou a arma na direção dos policiais e atirou, informou a corporação. Os agentes reagiram e o balearam. O atendimento médico foi solicitado, mas ele não resistiu.
Perto do ponto onde o médico estava, foi encontrada uma cápsula deflagrada. O boletim de ocorrência registra materiais que indicam ao menos um disparo feito dentro da residência, em direção ao portão e à posição dos policiais.
As crianças foram retiradas sem ferimentos e entregues a familiares. A companheira também não se feriu, mas foi levada a um hospital para atendimento.
Um médico ligado a uma instituição social
Luciano atuava como médico vascular e foi diretor-presidente da Associação Mahatma Gandhi, organização social sem fins lucrativos que atende pacientes com transtornos mentais e dependência química em Catanduva.
A ironia é dura de engolir. Um profissional que dedicou parte da vida ao cuidado de pessoas vulneráveis morreu apontando uma arma contra policiais, depois de ameaçar a própria companheira diante dos filhos. Esses contrastes não apagam a tragédia, mas mostram como a violência machista não escolhe profissão, diplomas ou currículo.
Violência contra a mulher: um problema estrutural
O que aconteceu em Catanduva começa, como quase sempre, com uma mulher ameaçada dentro da própria casa. Segundo dados históricos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a maior parte dos feminicídios é cometida por parceiros ou ex-companheiros. A Lei Maria da Penha também se aplica a agressões cometidas por familiares.
Enquanto setores conservadores tratam o desarmamento como ataque à liberdade individual, mulheres seguem morrendo dentro de casa, muitas vezes por armas legalmente registradas. O arsenal de Catanduva, a suástica na medalha e a ausência de documentação que comprovasse a regularidade das armas são sintomas de um país que ainda não decidiu de que lado está.
A Polícia Civil continua investigando o caso. O IPM apurará a atuação dos policiais militares. E uma família, sobretudo duas crianças de 14 e 10 anos, tenta reconstruir o que restou.
Em caso de violência, denuncie
Ao presenciar um episódio de agressão contra mulheres, ligue 190 e denuncie. Também é possível fazer denúncias pelo 180, a Central de Atendimento à Mulher, e pelo Disque 100, que apura violações de direitos humanos.
Perguntas frequentes
O que aconteceu com o médico de Catanduva?
Luciano Lopes Pastor, de 52 anos, morreu em 18 de outubro após trocar tiros com a PM. Ele havia ameaçado de morte a companheira e atirou contra os policiais durante a negociação, segundo a corporação.
O que foi encontrado na casa do médico?
Uma medalha com suástica, revólveres, pistolas, espingardas, centenas de cartuchos de diversos calibres, um Kit Roni CAA, uma réplica de granada e dois cofres, um deles fechado. Não havia documentação que comprovasse a regularidade das armas.
Como denunciar violência doméstica?
Ligue 190 em caso de emergência, 180 para a Central de Atendimento à Mulher ou 100 para denunciar violações de direitos humanos.
