Modernidade: um projeto inacabado que ainda pode ser nosso
A modernidade prometeu muito: progresso, razão, liberdade. Mas será que essa promessa chegou para todos? A escalada do poeta Francesco Petrarca ao Monte Ventoux, em 1336, é lembrada como o marco de uma nova era, onde o indivíduo começou a se enxergar como protagonista da própria história. Essa virada, porém, deixou muita gente pelo caminho. A pergunta que fica é: a quem serviu esse projeto?
O que a modernidade realmente mudou na vida das pessoas?
Petrarca subiu a montanha não para encontrar Deus, mas para se encontrar. Foi um gesto de individualidade que abriu caminho para as revoluções científicas do século 17, o Iluminismo, a Revolução Francesa e a Industrial. A razão virou a bússola do mundo. Mas, no Brasil de hoje, com tanta desigualdade, dá para dizer que a razão iluminou todo mundo?
O conhecimento avançou, as tecnologias se multiplicaram, mas as periferias seguem esperando por condições dignas de vida. A modernidade prometeu que cada geração deixaria mais liberdade e mais domínio sobre a natureza para a próxima. Será que essa promessa chegou aos trabalhadores, às comunidades tradicionais, aos povos originários?
O progresso é mesmo inevitável ou é uma escolha política?
O filósofo Karl Löwith, em Meaning in History (1949), já avisava: a ideia de progresso não passaria de uma secularização dos dogmas religiosos. Trocamos a salvação divina por um futuro supostamente melhor. Mas quem define esse futuro? As elites? O mercado? Ou o povo?
Oswald Spengler, em O Declínio do Ocidente, foi além: disse que a história universal é uma miragem ocidental. Cada sociedade tem seu próprio caminho, como organismos que nascem, crescem e podem declinar. Para nós, aqui no Sul Global, essa crítica é essencial. O modelo de progresso imposto pelo Norte não serve para as nossas realidades.
E a resposta de Hans Blumenberg e Jürgen Habermas?
Blumenberg, em The Legitimacy of the Modern Age (1966), defendeu que a modernidade não é só uma cópia do pensamento medieval. Ela surgiu de problemas reais que a velha ordem não resolvia. E Habermas, já no fim do século 20, insistiu: a modernidade é um projeto inacabado. Não dá para jogar fora a razão, mas é preciso corrigir os seus rumos.
Ou seja, a razão não pode servir apenas ao lucro e à exploração. Ela precisa estar a serviço da justiça social, da igualdade e da vida digna para todos. É isso que falta: uma modernidade que inclua, que repare, que redistribua.
Qual o papel da universidade nesse projeto?
Hans Jonas, em O Princípio Responsabilidade (1979), alertou que a tecnologia mudou a natureza da ação humana. O mesmo conhecimento que cura pode destruir. Por isso, precisamos de uma ética que pense nas próximas gerações, que combata o consumismo e a ganância.
A universidade pública é a expressão mais bonita desse projeto. Ela não promete que o futuro será melhor, mas garante que ele continue aberto. É lá que a dúvida vira método e que o conhecimento não vira dogma. É lá que se forma o pensamento crítico que pode, de fato, transformar o Brasil.
Se Petrarca olhou do alto do Monte Ventoux e viu um mundo novo, nós precisamos olhar para as nossas comunidades e enxergar um futuro possível. Um futuro que não seja uma miragem de redenção, mas uma construção coletiva, com responsabilidade e autocrítica. A modernidade não acabou. Ela só ainda não chegou para todo mundo. E a luta é para que chegue.