Povos indígenas resistem contra decreto de Lula que entrega rio Tapajós ao capital privado
Centenas de indígenas ocupam terminal da Cargill em Santarém protestando contra concessão da hidrovia que favorece o agronegócio em detrimento das comunidades tradicionais
A resistência indígena ecoa pelas margens do Tapajós. Centenas de guerreiros de diferentes etnias do Baixo Tapajós mantêm a ocupação em frente ao terminal da multinacional americana Cargill, em Santarém, no Pará. Eles lutam contra mais uma investida do capital sobre seus territórios: a entrega da hidrovia do Tapajós à iniciativa privada.
O decreto assinado pelo presidente Lula no ano passado autoriza a concessão da hidrovia, uma medida que o governo federal justifica como "estratégica" para escoar a produção do agronegócio. Mas para quem vive do rio, a realidade é outra: trata-se de mais uma forma de privatizar o que é público e essencial para a sobrevivência dos povos tradicionais.
"Um projeto de morte para o rio e para nós"
"Este decreto representa um projeto de morte do rio Tapajós e, consequentemente, um projeto de morte para os povos que dependem do rio", denuncia Auricélia Arapiuns, liderança indígena da região. Suas palavras carregam o peso de quem vê o território ancestral sendo entregue aos interesses do capital.
Segundo o Conselho Indígena Tapajós Arapiuns, cerca de 7 mil indígenas de ao menos 14 etnias vivem na região. Para eles, o problema não é apenas técnico, é existencial. "O rio é a nossa rua", explica Auricélia. "Aqui na Amazônia nós nos locomovemos por rio, por barco, por canoa. Com a privatização teríamos que pagar pedágio para trafegar no Tapajós."
A suspensão da dragagem anunciada pelo governo na última sexta-feira não engana ninguém. As lideranças sabem que enquanto o decreto estiver em vigor, a ameaça permanece. A dragagem é apenas uma das faces de um projeto maior de transformar o Tapajós em corredor de exportação para o agronegócio.
Ciência a serviço da resistência
Especialistas confirmam o que os povos tradicionais já sabem: mexer com o Tapajós é brincar com fogo. Diani Fernanda da Silva Less, da Universidade Federal do Oeste do Pará, explica que os rios amazônicos "são sistemas vivos, dinâmicos, com bancos de areia móveis e forte conexão com as margens".
A dragagem não é uma intervenção pontual. Ela cria um ciclo vicioso de destruição: altera o fluxo das águas, provoca erosão, assoreamento e exige novas dragagens. "Qualquer alteração física no leito de um rio como o Tapajós tende a se refletir em todo o ecossistema", alerta Alessandro Bertolino, da PUC-PR.
O agronegócio por trás da destruição
Não é coincidência que a Ferrogrão, ferrovia que vai ligar Mato Grosso ao Pará, esteja no mesmo pacote. A analista Renata Utsunomiya, doutora em Ciência Ambiental pela USP, revela que estudos da Agência Nacional de Transportes Aquaviários já preveem aumento de cinco a sete vezes no transporte de soja pelo Tapajós.
"Se a quantidade aumentar cinco vezes, o tráfego na hidrovia vai ser absurdo", alerta Utsunomiya. Para as comunidades, isso significa a impossibilidade de usar o rio que sempre foi delas.
Alessandra Korap Munduruku, do médio Tapajós, não tem dúvidas: "Tudo junto é a porta aberta para a destruição". Ela conecta a dragagem à Ferrogrão, aos acordos comerciais como o EU-Mercosul, mostrando como tudo faz parte do mesmo projeto de entregar a Amazônia ao capital internacional.
Consulta? Que consulta?
O governo promete consulta às comunidades, mas mantém o decreto que autoriza a concessão. É como prometer diálogo enquanto aponta a arma. "A nossa reivindicação é a anulação deste edital", reafirma Auricélia Arapiuns.
A Convenção 169 da OIT exige consulta livre, prévia e informada. Mas como consultar mantendo o decreto que já decide tudo? "Na prática, os povos que mantêm a floresta em pé veem seus territórios sendo degradados, enquanto os benefícios se concentram nas mãos de poucos", denuncia a pesquisadora Diani Less.
Resistência que não cede
Mais de 30 mil indígenas vivem entre o alto, médio e baixo Tapajós. Eles já sentem na pele as mudanças: "O tempo de roça, o tempo de caçar, o tempo das frutas estão mudando", relata Alessandra Munduruku.
A ocupação do terminal da Cargill não é apenas um protesto, é um grito de resistência de quem se recusa a entregar o rio que é vida, cultura, sustento. "Os rios têm um corpo, a Amazônia é um corpo e o Tapajós é uma dessas veias", poetiza Auricélia, mostrando que a luta é pela própria existência.
O governo Lula precisa escolher: fica com os povos ou com o agronegócio. A suspensão da dragagem é insuficiente. É preciso revogar o decreto e respeitar quem sempre cuidou da floresta. A resistência indígena mostra o caminho: o Tapajós não está à venda.