Prefeito mandou Fifa às favas e recusou Copa para não esfolar o povo
Enquanto 16 cidades celebram a chegada da Copa do Mundo de 2026, uma das maiores metrópoles dos Estados Unidos vai ficar só na janela. A ausência de Chicago do torneio não foi acidente. Foi uma decisão política corajosa que ainda faz ecoar um baita debate: até que ponto o povo deve bancar o luxo de organizações esportivas privadas?
Em entrevista ao The Athletic, publicada nesta segunda-feira, o ex-prefeito Rahm Emanuel revelou que mandou às favas o acordo proposto pela Fifa. O motivo é claro e simples: os riscos financeiros ficariam todos na costa dos contribuintes da cidade.
A cláusula que poderia esfolar o povo
A principal divergência envolvia uma cláusula de fazer chorar. A Fifa queria o direito de pedir a instalação de uma cobertura no Soldier Field, casa do futebol americano local. O contrato previa essa possibilidade, mesmo que a entidade nunca tivesse usado esse dispositivo antes.
O custo estimado da obra variava entre US$ 50 milhões e US$ 100 milhões. Para o bolso do contribuinte, isso representava um rombo entre R$ 258,5 milhões e R$ 517 milhões. Uma fortuna que sairia do suor do povo.
Eles disseram que nunca haviam usado essa cláusula, mas eu respondi que toda primeira vez acontece uma vez. Não havia nenhuma possibilidade de deixar os contribuintes expostos a uma despesa dessa magnitude.
Lucro privado, prejuízo público: o velho jogo da Fifa
A crítica de Emanuel não parou na cobertura. Segundo ele, o modelo de organização da Copa é um escárnio. A Fifa fica com as receitas de ingressos, direitos de transmissão, patrocínios, estacionamento e outras fontes de arrecadação. Já as cidades-sede ficam segurando o abacaxi, bancando custos de segurança, mobilidade urbana, transporte público, serviços médicos, bombeiros e policiamento.
Para ter uma ideia do tamanho da mamata, a Fifa projeta arrecadar mais de US$ 11 bilhões com a Copa de 2026. Na cotação atual, isso dá uns R$ 56,9 bilhões. Dinheiro que vai direto para os cofres da entidade em Zurique.
Estavam me pedindo para assumir todos os riscos enquanto a Fifa ficava com os lucros. Os números simplesmente não fechavam.
Marketing de cidade? Chicago não precisa de Fifa
A Fifa insiste que o torneio gera impacto econômico positivo para as cidades-sede. O presidente da entidade, Gianni Infantino, vive citando estudos que estimam um impacto de cerca de US$ 30 bilhões na economia americana durante o Mundial, equivalente a aproximadamente R$ 155,1 bilhões.
Mas Emanuel não comprou esse papo. Ele sabe que esse tal de impacto econômico raramente chega a quem mais precisa. O lucro fica com os de sempre, e a conta vai para o trabalhador.
Diziam que seria excelente para o marketing da cidade. Eu respondia que Chicago não precisava da Fifa para ser conhecida mundialmente.
Outras exigências abusivas rejeitadas
Além da tal cobertura do estádio, Chicago também deu um basta em outros pontos escabrosos do contrato. Entre eles estavam pedidos de isenção fiscal sobre ingressos, transporte gratuito para torcedores e a obrigação de financiar uma área oficial de eventos da Fifa durante todo o torneio.
Aceitar essas condições seria contraditório com a política de Emanuel de não utilizar recursos públicos para beneficiar organizações esportivas privadas. Uma posição que faz sentido quando a gente olha para as prioridades de uma cidade que precisa de investimento em saúde, educação e moradia.
Uma lição de soberania popular
A decisão chamou atenção porque Chicago sempre foi considerada uma das candidatas naturais para receber jogos da Copa. A cidade sediou partidas da Copa do Mundo FIFA de 1994, recebeu jogos da Copa do Mundo Feminina de 1999 e abriga franquias de todas as principais ligas esportivas norte-americanas.
Mas a coragem de dizer não à Fifa mostra que é possível botar os interesses do povo na frente do espetáculo. Enquanto elites e corporações lucram com esses eventos, os trabalhadores é que ficam com a conta. Emanuel provou que quando a gente defende o dinheiro público e a soberania popular, a gente não se dobra às ditaduras do entretenimento.