Quando o amigo vira chefe: hierarquia contra solidariedade no mundo do trabalho
No Brasil de hoje, onde o desemprego ainda assombra milhões de famílias, quem consegue se manter no mercado de trabalho enfrenta dilemas que vão muito além da simples busca pela sobrevivência. Um deles surge quando a amizade construída no ambiente profissional se choca com as estruturas hierárquicas do capitalismo: e quando o colega de luta diária vira seu chefe?
"Passamos mais tempo no trabalho do que em casa. É natural que criemos laços nesse ambiente onde lutamos juntos pelo pão de cada dia", reflete a realidade de milhões de brasileiros que dividem não apenas o espaço laboral, mas confidências, almoços e até mesmo críticas ao patrão. Mas quando um desses companheiros sobe na hierarquia, como fica a solidariedade?
A lógica perversa da meritocracia
Segundo Leila Said, mentora em liderança e estratégia empresarial, essa mudança de status pode gerar conflitos profundos. "Há várias questões que fazem a gente mudar de papel, mas os nossos valores têm que continuar", afirma. Para ela, o combustível dessa transição deve ser a admiração mútua, não a competição selvagem que o sistema nos impõe.
"Toda vez que vemos um amigo crescer, a gente também cresce. Não é porque chegamos à fase adulta que vamos estacionar dentro da empresa", destaca Said. Mas será que essa visão otimista se sustenta numa realidade onde as oportunidades são escassas e a pressão por resultados é constante?
O peso das estruturas de poder
Vivian Wolff, especialista em desenvolvimento humano e organizacional, traz uma perspectiva mais crítica: "Essa transição pode ser tanto empolgante quanto desafiadora, exigindo um delicado equilíbrio entre manter a amizade e respeitar os limites profissionais".
A especialista alerta para um primeiro passo crucial: reconhecer a mudança de poder. "Líderes que não abordaram a mudança na dinâmica de poder com colegas com quem tinham amizade podem se arrepender de terem esperado demais para fazê-lo", observa.
A inveja como sintoma social
Uma pesquisa reveladora do site americano ResumeLab, de 2020, mostrou que metade dos trabalhadores admite sentir inveja quando um colega é promovido. Esse dado expõe uma ferida aberta do sistema: a escassez artificial de oportunidades que coloca trabalhadores uns contra os outros.
"Se você estiver dominado pela inveja, tente canalizar essa energia para algo positivo", aconselha Wolff. Mas o conselho individual não resolve o problema estrutural: por que há tão poucas oportunidades de crescimento para a classe trabalhadora?
Transparência versus privilégios
Para Leila Said, a transparência deve ser o norte: "Não é porque é amigo que você tem que contar tudo. As informações precisam ser apresentadas a todas as pessoas da equipe. Transparência em primeiro lugar".
Essa fala toca num ponto sensível: como manter a ética e a justiça quando se ocupa uma posição de poder? A resposta passa pela construção de relações mais horizontais e democráticas no ambiente de trabalho, algo que vai contra a lógica autoritária de muitas empresas brasileiras.
Solidariedade como resistência
No fim das contas, a questão central não é como adaptar-se à hierarquia, mas como construir relações de trabalho mais justas e solidárias. Quando um trabalhador ascende profissionalmente, ele pode escolher reproduzir as estruturas de opressão ou usar sua nova posição para fortalecer os laços de companheirismo e luta coletiva.
A verdadeira mudança virá quando pararmos de ver a promoção de um colega como uma ameaça individual e começarmos a enxergá-la como uma oportunidade de transformar as relações de trabalho por dentro, construindo espaços mais democráticos e humanos para todos os trabalhadores.