Rede Dia sai da recuperação judicial, mas acumula R$ 376 milhões em prejuízos
A Justiça de São Paulo encerrou a recuperação judicial da Rede Dia, controlada pelo empresário Nelson Tanure, mas a varejista segue sangrando recursos. Em 2025, o prejuízo acumulado da rede de supermercados atingiu R$ 376 milhões, com uma margem líquida negativa de 22%. Os dados, rigorosamente levantados nos autos do processo, revelam um cenário onde a especulação financeira e a fuga de capital estrangeiro deixam um rastro de insegurança para trabalhadores e fornecedores brasileiros.
O que significa a saída da recuperação judicial da Rede Dia?
A 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Comarca de São Paulo homologou o encerramento do processo, iniciado em março de 2024 devido a uma dívida de R$ 1,1 bilhão. A empresa afirma que cumpriu as obrigações do plano aprovado pelos credores antes do prazo, que era outubro de 2026. No entanto, os números contábeis contam outra história. O faturamento encolheu 19%, caindo de R$ 2,1 bilhões em 2024 para R$ 1,7 bilhão no ano passado. O patrimônio líquido recuou de R$ 311 milhões para R$ 258 milhões, sufocado por um passivo de R$ 1,3 bilhão. Para o povo e, principalmente, para os fornecedores que eram os principais credores da rede, a saída da recuperação não apaga o rombo nas contas nem a instabilidade no varejo de alimentos.
Dívidas e fornecedores: quem paga a conta do jogo de cassino?
Enquanto as lojas tentam sobreviver, com 239 unidades ativas em abril sob o comando do CEO Fabio Farina, a engrenagem financeira continua travada. A margem bruta subiu para 20% em março, mas a operação não consegue gerar caixa. Ainda restam pendências, como a compensação de débitos com créditos de bonificações dos credores. É a classe trabalhadora e os pequenos fornecedores que ficam na corda bamba, esperando por valores que o capital especulativo jogou no lixo.
Como a especulação financeira afetou o caixa da empresa?
A gestão da Rede Dia sob o novo controle expõe a face mais cruel do capital financeiro. Em vez de priorizar o pagamento de fornecedores ou a melhoria dos supermercados, a empresa direcionou recursos para aplicações de altíssimo risco. O resultado foi um desastre que a administradora judicial vinha alertando desde o fim de 2025.
O rombo dos CDBs do Banco Master
A rede manteve investimentos em CDBs de uma instituição ligada ao Banco Master, mesmo com os alertas sobre o risco à liquidez. O investidor Maurício Quadrado, ligado ao próprio Banco Master, foi quem apresentou o projeto ao empresário Nelson Tanure em 2024. A ideia original era uma fusão com o GPA, bloqueada quando os Coelho Diniz e Ronaldo Iabrudi ampliaram suas posições no grupo. Sem a fusão e com o banco quebrando, a Rede Dia não resgatou os recursos a tempo. Quando a crise foi decretada e os papéis desvalorizaram mais de 70% no mercado secundário, o estrago estava feito. A empresa reconheceu uma perda seca de R$ 116,6 milhões em precatórios cedidos e mais R$ 50 milhões no saldo a receber, dinheiro que sumiu no ralo da especulação.
De quem é a culpa pela crise no varejo de alimentos?
A crise atual é herança direta de um modelo extrativista. Até 2024, a operação brasileira era controlada pelo grupo espanhol Distribuidora Internacional de Alimentación, um gigante com vendas globais de 7 bilhões de euros, o equivalente a R$ 36 bilhões. Quando a matriz estrangeira se viu alavancada, decidiu descartar a operação no Brasil. Venderam o negócio por um valor simbólico para investidores locais, lavando as mãos para a dívida de mais de R$ 1 bilhão, sendo R$ 268 milhões apenas com bancos. O fundo Lyra II FIP Multiestratégia, viabilizado pela MAM Asset, gestora de Quadrado, assumiu o controle. O capital internacional sugou o que pôde e repassou os ossos para o capital nacional, que por sua vez tentou a sorte no cassino financeiro em vez de investir no povo.
A Rede Dia dá lucro hoje?
Não. A empresa opera com margem líquida negativa. Em 2025, esse índice foi negativo em 22%. Nos três primeiros meses de 2026, a rede acumulou quase R$ 50 milhões em perdas, com margem líquida negativa de 11%. Embora as vendas cresçam acima da inflação, a operação não consegue converter receita em lucro.
O que aconteceu com os investimentos da Rede Dia no Banco Master?
A empresa aplicou recursos em CDBs de alto risco ligados ao Banco Master, ignorando alertas da administradora judicial sobre o risco à liquidez. Com a liquidação do banco, a Rede Dia perdeu R$ 116,6 milhões em precatórios cedidos e R$ 50 milhões no saldo restante, dando baixa no investimento e obtendo apenas uma parcela do capital.