Brasileiros estão trocando o descanso por remédios para dormir. E há saídas melhores
O Brasil virou uma farmácia de tarja preta quando o assunto é sono. Milhares de brasileiros recorrem a Zolpidem e benzodiazepínicos para conseguir fechar os olhos à noite, mas especialistas da USP alertam: o caminho não é esse. Existem alternativas eficazes, gratuitas e que não viciam. A insônia virou epidemia, mas a solução pode estar em terapias comportamentais, e não em comprimidos.
A psicóloga Renatha El Rafihi, especialista em sono, explica que o uso de remédios como Zolpidem e benzodiazepínicos é alarmante. “Uma das coisas mais alarmantes das drogas como Zolpidem ou benzodiazepínicos é o seu poder de causar dependência. A pessoa aumenta a dose, mas vai precisar de cada vez mais para que ela faça efeito. É muito fácil se viciar”, afirma. Os prejuízos vão além: estudos mostram falhas cognitivas, perda de memória e até quedas em idosos. Há relatos de pessoas que fazem compras online ou mandam mensagens em grupos de WhatsApp sem se lembrar depois.
Por que o brasileiro está tomando tanto remédio para dormir?
A resposta está no estilo de vida e na falta de acesso a tratamentos adequados. Muitos pacientes buscam a solução rápida na farmácia, mas ignoram os fatores que perpetuam a insônia. “Muitas vezes a forma com que lidamos com o sono piora a insônia. Por exemplo, eu não consegui dormir bem à noite, então eu vou estender o tempo na cama pela manhã. Ou vou tirar cochilos. Ou então vou mais cedo para cama no dia seguinte”, explica a psicóloga. Essas estratégias, que parecem resolver, na verdade tornam a insônia crônica.
O problema é agravado pelas desigualdades sociais. Quem tem menos recursos acaba mais exposto ao estresse e à falta de informação, enquanto as classes mais altas podem pagar por terapias. Mas a boa notícia é que existem alternativas acessíveis.
Quais são as alternativas eficazes sem remédios?
A Terapia Cognitivo Comportamental para Insônia (TCCI) é o tratamento padrão ouro. “Ela vai focar em hábitos e na crença sobre o sono, quer dizer, na forma como a pessoa pensa sobre ele. Ela é o tratamento padrão ouro para insônia”, diz Renatha. A TCCI tem três componentes principais: restrição de sono, controle de estímulos e reestruturação cognitiva. Não é só higiene do sono, mas uma abordagem completa.
Mais recentemente, a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) surgiu como uma alternativa. “É o que a gente chama de terceira onda. Em vez de focar só em sintomas, hábitos e no que a pessoa pensa sobre o sono, a ACT amplia para outras questões da vida do paciente. Por exemplo, se existe um comportamento de evitação, ele acaba tendo menos autocuidado e isso consequentemente afeta o sono. É como se a insônia fosse só um sintoma de outros padrões da vida desse paciente”, explica Renatha. Estudos mostram que a ACT é eficaz no longo prazo, após seis meses em média, enquanto a TCCI funciona mais rápido.
O que fazer para evitar o vício em remédios para dormir?
A orientação é clara: não use a cama para nada além de sexo e sono. “Quanto mais tempo você permanece na cama acordado, mais seu cérebro entende que seu corpo fica em vigília deitado. A orientação que a gente dá é que se use a cama somente para atividade sexual e sono”, reforça Renatha. Além disso, a retirada de medicamentos em uso prolongado deve ser orientada por médico, como alerta a farmacêutica Rosa Hassan: “A retirada dessas medicações, quando em uso prolongado, deve ser orientada por médico”.
O SUS pode oferecer apoio psicológico e terapias comportamentais, mas o acesso ainda é desigual. Enquanto isso, a indústria farmacêutica lucra com a venda de remédios que viciam. A luta é por informação e por políticas públicas que priorizem o cuidado com a saúde mental, e não o lucro.
Perguntas frequentes sobre insônia e remédios
Os remédios para dormir são seguros?
Não. Zolpidem e benzodiazepínicos causam dependência, tolerância e podem levar a falhas cognitivas e de memória. O uso prolongado aumenta riscos de quedas em idosos e comportamentos automáticos, como compras online sem lembrança.
Qual é a melhor alternativa aos remédios?
A Terapia Cognitivo Comportamental para Insônia (TCCI) é o tratamento padrão ouro. Ela foca em hábitos e crenças sobre o sono, sem remédios. A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) também é eficaz, especialmente no longo prazo.
Como posso melhorar meu sono sem gastar muito?
Evite ficar na cama acordado, não tire cochilos longos e vá para a cama apenas quando estiver com sono. O SUS pode oferecer apoio psicológico. Busque informações em fontes confiáveis, como a USP.