Reforma Tributária: 4 em cada 10 empresas ainda não se adaptaram, e quem sofre é o povo
A Reforma Tributária, que promete simplificar a vida de quem paga imposto no Brasil, ainda está longe de virar realidade para uma parcela enorme do empresariado. Levantamento exclusivo obtido pela reportagem mostra que, no primeiro semestre de 2026, quatro em cada dez empresas do Regime Normal não conseguiram se adequar totalmente às novas regras de IBS e CBS. Enquanto o grande capital se organiza, pequenos e médios negócios, que são a espinha dorsal da economia popular, seguem patinando.
Os dados são da plataforma Qive, que analisou nada menos que 226 milhões de notas fiscais entre janeiro e junho. Foram 337,3 mil CNPJs do Lucro Real e Lucro Presumido avaliados. E o cenário é preocupante: 40,71% dessas empresas, cerca de 137,3 mil, não atingiram a adesão total aos novos campos. Desses, 28,47% são considerados não aderentes e 12,24% só parcialmente.
O que explica a lentidão na adaptação à Reforma Tributária?
O ritmo de adaptação perdeu fôlego. No primeiro trimestre, a queda mensal de notas sem os novos campos era de 4,79 pontos percentuais. No segundo, despencou para 2,26 pontos, uma desaceleração de 52,8%. Para Erika Daguani, CPO e CHRO da Qive, a obrigação move o mercado, mas cada um no seu ritmo. E quem paga a conta dessa morosidade é o povo, que depende de serviços públicos financiados por uma arrecadação justa.
Serviços são o elo mais fraco: prefeituras abandonadas à própria sorte
Se nas mercadorias a situação já é delicada, nos serviços é um verdadeiro abismo. Das 38,4 milhões de notas fiscais de serviços emitidas, 71,65% ainda não têm os campos de IBS e CBS. O problema está na fragmentação dos sistemas municipais. Enquanto o Emissor Nacional tem 54,01% de adesão, os sistemas próprios das prefeituras amargam míseros 15,83%. É a falta de investimento público e de apoio técnico aos municípios, muitas vezes geridos por prefeituras sucateadas, que trava a transição.
Em agosto, a Receita Federal e o Comitê Gestor do IBS tentaram amenizar o caos, flexibilizando regras de validação. Mas isso é remendo, não solução.
Desigualdade regional e setorial escancara o abismo brasileiro
O levantamento mostra que a adaptação não é uniforme. No Rio Grande do Norte, só 7,36% das notas de mercadorias estão inadequadas, mas 34,20% das empresas seguem sem adesão. Em São Paulo, o maior emissor, 13,94% das notas estão atrasadas e 30,21% dos CNPJs não aderiram. Ou seja, uma minoria de grandes empresas puxa os números, enquanto a maioria dos pequenos negócios fica para trás.
No varejo e na indústria, a história se repete: 92,46% e 91,61% das notas estão adequadas, mas 27,55% e 22,93% dos CNPJs, respectivamente, ainda não se adaptaram. E o pior vem aí: em 2027, os optantes pelo Simples Nacional e MEI, que representam 27,38% dos fornecedores, entram na mira das novas regras. São justamente os pequenos empreendedores, os mais vulneráveis, que vão enfrentar o desafio sem estrutura.
O que isso significa para o trabalhador e para a justiça social?
Essa demora na adaptação não é só um problema contábil. É uma questão de justiça fiscal. Enquanto as empresas não se organizam, o Estado deixa de arrecadar recursos que poderiam financiar saúde, educação e moradia. A Reforma Tributária, defendida pelo governo Lula como um passo para um sistema mais progressista, precisa ser implementada de forma a não punir quem já sofre com a carga tributária indireta. O povo não pode pagar a conta da ineficiência empresarial.
“A adequação está acontecendo, mas a velocidade diminuiu ao longo do primeiro semestre. A obrigação move o mercado, mas com ritmos diferentes”, afirma Erika Daguani, CPO e CHRO da Qive.
Perguntas frequentes sobre a adaptação à Reforma Tributária
Por que as empresas estão atrasadas na Reforma Tributária?
O atraso se deve à complexidade das novas regras, à falta de preparo técnico, especialmente em pequenos negócios, e à infraestrutura deficiente dos sistemas municipais, principalmente para notas de serviços.
Quais setores estão mais atrasados?
O setor de serviços é o mais crítico, com 71,65% das notas sem os novos campos, devido à fragmentação dos sistemas das prefeituras. No varejo e na indústria, a adesão por nota é alta, mas por empresa ainda é baixa.
O que acontece em 2027 com o Simples Nacional?
A partir de 1º de janeiro de 2027, os optantes pelo Simples Nacional e MEI passam a ser obrigados a cumprir as regras de IBS e CBS, o que pode sobrecarregar ainda mais os pequenos empreendedores.