Crise no STF desgasta Lula, mas Bolsonaro não consegue avançar, mostra Quaest
A mais recente pesquisa Quaest sobre a eleição presidencial, divulgada neste 7 de setembro, escancara um cenário preocupante para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Durante o período de entrevistas, o país vivia o auge das denúncias contra o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre Moraes, expostas pelo colega de corte André Mendonça, envolvendo relações suspeitas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O resultado? A aprovação do governo caiu de 45% para 43%, enquanto a desaprovação subiu de 48% para 50%. É um golpe duro, mas que não se traduz em vitória para a oposição.
Enquanto Lula sangra, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tenta surfar a onda da crise. Ele transformou o noticiário sobre Moraes no carro-chefe de sua manifestação de 7 de setembro em São Paulo, que atraiu um público discreto, segundo estimativas da USP/Cebrap e More in Common. Sua promessa de acabar com o “consórcio Lula/Moraes” ecoa o discurso de seu candidato a vice, Alfredo Gaspar (PL-AL), que resumiu: “Temos duas faces de uma mesma moeda, Lula e Alexandre. Não existe Lula sem Alexandre e não existe Alexandre sem Lula”.
Mas a aposta bolsonarista tem limites. A pesquisa mostra que o tema da corrupção cresceu de 14% para 20% entre as preocupações do eleitorado em apenas cinco dias. É um dado que preocupa, sim, e que já causava pessimismo entre aliados de Lula antes mesmo da divulgação dos números. Em grupos de WhatsApp, ativistas temiam que o presidente aparecesse em segundo lugar nas simulações de segundo turno. Não foi o caso: há um empate técnico de 41% a 41% com Flávio, o mesmo cenário de março. Lula perde um ponto percentual por rodada desde julho, mas a rejeição de Flávio segue teimosa em 55%, dois pontos acima da de Lula.
E por que a rejeição de Flávio não cai? Talvez porque a corrupção seja uma faca de dois gumes. O senador gravou um áudio pedindo dinheiro ao ex-banqueiro Vorcaro, o mesmo protagonista da crise que tenta explorar. Desde maio, não houve outra crise de dimensão equivalente, mas o cristal já está trincado. A população percebe a hipocrisia.
No primeiro turno, o cenário também não traz novidades. Lula e Flávio perderam um ponto cada, ficando com 36% e 29%, respectivamente, com o inelegível Pablo Marçal (PRTB) fora da disputa. Augusto Cury (Avante), o terceiro colocado, oscilou de 10% para 8% e ainda é desconhecido por 52% do eleitorado. Mas é entre os independentes que a eleição pode se decidir. Flávio consegue 32% nesse segmento, ante 40% de indecisos que querem anular, votar branco ou não comparecer. Cury aparece com 17%, sete pontos atrás de Lula e oito à frente do senador do PL.
O desencanto com os dois principais candidatos abre espaço para o outsider, mas o destino desses eleitores indefinidos será crucial. Se Lula contraria a regra de candidatos à reeleição, que é a de melhorar sua aprovação durante a campanha, Flávio mostra dificuldade de capturar o voto despolarizado. A eleição segue em aberto, com Flávio tecnicamente favorável, mas sem conseguir transformar a crise do STF em combustível eleitoral sólido. Para os movimentos sociais e para a esquerda, o recado é claro: é preciso reagir, e rápido, para não deixar o país nas mãos de quem sempre esteve ao lado dos privilegiados.
O que a queda na aprovação de Lula significa para a eleição?
A queda de dois pontos na aprovação do governo Lula, para 43%, com desaprovação em 50%, reflete o impacto imediato das denúncias contra Alexandre Moraes. Esse “gap” de sete pontos só foi visto em abril, quando a desaprovação superava a aprovação em nove pontos. Apesar disso, o empate técnico no segundo turno com Flávio Bolsonaro mostra que a oposição não consegue capitalizar plenamente a crise.
Por que Flávio Bolsonaro não reduz sua rejeição?
A rejeição de Flávio segue em 55%, dois pontos acima da de Lula. Uma explicação é o áudio em que ele pede dinheiro ao ex-banqueiro Vorcaro, o mesmo personagem da crise que tenta explorar. A população percebe a contradição, e o tema da corrupção é tóxico para ambos os lados.
Quem pode se beneficiar do desencanto eleitoral?
Augusto Cury (Avante) aparece com 17% entre os independentes, mas ainda é pouco conhecido. O segmento de eleitores indecisos, que representa cerca de um terço do eleitorado, será decisivo. Se o desencanto crescer, Cury pode se tornar um fator surpresa, embora ainda esteja longe de ameaçar os líderes.