Suellen Carey sofre transfobia após elogiar Neymar e expõe duplo padrão
Influenciadora trans foi atacada na internet por demonstrar admiração ao jogador, revelando o preconceito estrutural que ainda marca o convívio online
Um simples comentário de fã bastou para escancarar o que a comunidade trans já sabe há muito tempo: na internet, o direito de existir e de se expressar ainda é negociado. A influenciadora trans Suellen Carey, de 38 anos, denunciou nesta semana uma enxurrada de ataques transfóbicos após deixar uma mensagem de carinho para Neymar no Instagram. O episódio, que poderia ter passado despercebido, revela o tamanho do preconceito que mulheres trans enfrentam diariamente no ambiente digital.
Um elogio que virou alvo
Morando atualmente em Londres, no Reino Unido, Suellen escreveu no perfil do jogador:
“Neymar seu lindo, sou sua fã. Muita sorte na Copa do Mundo.”Nada além de admiração, o mesmo tipo de mensagem que milhares de fãs deixam todos os dias. Mas para Suellen, a reação foi diferente. O comentário atraiu ofensas que não tinham nada a ver com futebol, e sim com a identidade de gênero da influenciadora.
“Foi um comentário simples, como milhões de fãs fazem todos os dias. Eu apenas demonstrei carinho e desejei sorte para ele, mas algumas pessoas reagiram de uma forma que me surpreendeu”, afirma Suellen.
O fantasma do preconceito no futebol
Os ataques não ficaram restritos ao perfil de Neymar. Suellen começou a receber mensagens e comentários em seu próprio perfil, muitos deles focados exclusivamente no fato de ela ser uma mulher trans. Disseram que Neymar “não gosta de mulheres trans”, que ela “não fazia o tipo dele” e que o jogador jamais se interessaria por alguém como ela.
Suellen é clara: em nenhum momento estava tentando flertar.
“Começaram a dizer que o Neymar não gosta de mulheres trans, que eu não fazia o tipo dele e que ele jamais se interessaria por alguém como eu. Em nenhum momento eu estava tentando dar em cima dele. Eu apenas fiz um comentário como fã, mas algumas pessoas transformaram isso em outra coisa por causa da minha identidade.”
O que mais dói nessa história é que o preconceito já roubou dela um sonho. Suellen revelou que já pensou em seguir carreira no futebol, mas desistiu por medo da discriminação que poderia enfrentar. “O mais curioso é que eu já deixei de seguir um sonho no futebol por medo do preconceito e, anos depois, continuo vendo esse tipo de reação”, relata.
O duplo padrão que mata
Para Suellen, o problema vai muito além de uma rede social. Trata-se de um duplo padrão perverso: mulheres cisgênero podem elogiar livremente, mas quando uma mulher trans faz o mesmo, é vista como ameaça ou aberração. É esse tratamento desigual que perpetua a exclusão e a violência.
“Eu não estava tentando flertar com ninguém, nem esperando qualquer resposta. Fiz um comentário como fã, exatamente como milhares de outras pessoas fazem todos os dias.”
O questionamento final é direto e necessário:
“O que me faz pensar é se a reação teria sido a mesma caso o comentário tivesse sido feito por uma mulher cis. Às vezes parece que o problema não foi o comentário que eu fiz, mas o fato de eu ser uma mulher trans. É isso que me faz refletir sobre como algumas pessoas ainda enxergam situações tão simples.”
Transfobia não é opinião, é violência
O caso de Suellen Carey não é isolado. Ele é mais um sintoma de um país onde a transfobia estrutural ainda ceifa vidas e silencia vozes. Segundo dados da Antra, o Brasil lidera os índices de assassinatos de pessoas trans no mundo. Quando uma mulher trans não pode sequer elogiar um jogador sem ser atacada, fica evidente que o problema não está no comentário, está na sociedade que ainda recusa o direito à existência plena de pessoas trans.
A denúncia de Suellen é um grito de alerta. Enquanto o duplo padrão persistir, a internet continuará sendo um território hostil para quem ousa ser quem é. Transfobia não é opinião, é crime. E silenciar diante dela é cumplicidade.